                                              

        Lua-de-mel a trs
                    Honeymoon for three
                    Sandra Field



 
                                            CAPITULO I
Slade Reeden olhou rapidamente a lista de compromissos daquele dia e franziu a testa, intrigado.
 Cory Haines? ele perguntou a sua secretria.  Quem ? Outro poltico querendo dinheiro? Se for, est sem sorte hoje.
 Cory Haines  uma mulher, sr. Reeden.  dona de uma firma de paisagismo aqui na cidade.	
  O que ela quer?
  No me adiantou o motivo da visita, mas foi bastante insistente para conseguir uma hora marcada assim que possvel.
Ela iria pedir alguma coisa como todo mundo. Esse era um dos problemas do sucesso. Desde que Slade ganhara o prmio internacional pela arquitetura do centro da cidade de Chicago, corretores, burocratas e arquitetos o perseguiam dia e noite.
Seus olhos ardiam, pois no havia dormido bem na noite anterior. No tinha vontade alguma de trabalhar, com aquele tempo chuvoso e com neve, apesar de j estarem em maro, incio da primavera. Halifax, capital da Nova Esccia, era uma bela provncia no litoral leste do Canad, com clima constantemente frio.
A sra. Minglewood observou-o com simpatia. Gostava de trabalhar para o sr. Reeden em suas raras visitas ao escritrio da firma em Halifax. Ele era uma pessoa de bom temperamento e a tratava com considerao. Alm disso, era extremamente atraente. Nem mesmo os velhos astros de cinema do seu tempo, que tanto admirava, tinham o charme de Slade Reeden. Seria difcil achar algum mais sedutor que ele.
O relgio marcava duas horas da tarde quando a porta do elevador se abriu. Uma jovem se aproximou da mesa da sra. Minglewood e falou, com voz agradvel:
 Meu nome  Cory Haines. Tenho uma hora marcada com o sr. Reeden.
A sra. Minglewood olhou-a com admirao. Aquela mulher era exatamente do que o sr. Reeden precisava naquele dia chuvoso! Cory era uma linda jovem. Sem perder tempo, levou-a  sala de Slade, que estava ocupado com seus ltimos projetos para o porto da cidade. A secretria bateu na porta, antes de entrar, seguida pela recm-chegada, e informar:
 Sr. Reeden, esta  a srta. Cory Haines.
Cory j sabia o que iria encontrar. Nas reportagens sobre Slade, as fotos deixavam claro quanto ele era atraente. Porm, embora preparada, assim que o viu, percebeu que era muito mais bonito pessoalmente do que nas fotografias. Ali estava um homem alto e encantador, sentado em frente ao computador, mal percebendo sua presena.
 Antes de mais nada, obrigada por me receber em seu escritrio. Sei que o senhor  muito ocupado  disse Cory para se fazer notar.
Slade levantou-se automaticamente e voltou-se para a recm-chegada. Para sua surpresa, ela no era uma mulher idosa. Pelo contrrio, parecia mais jovem do que ele, j com trinta e quatro anos, e muito carismtica. Por uma frao de segundo, ele se deu conta de que sua gravata estava torta, as mangas da camisa enroladas at os cotovelos e seus cabelos desalinhados. Cory certamente no o encontrara em seu melhor dia.
  Sente-se, por favor. Gostaria de tirar o casaco?  Slade indagou.
  Sim, obrigada.
Ao ajud-la, sentiu de perto seu perfume. Uma fragrncia extica, que lembrava o clima quente e as flores. Percebeu tambm o tom acobreado nos cabelos bem tratados, que a luz da sala ajudava a realar.
 Em que posso ajud-la?
Ao sentar-se em frente a Cory, Slade reparou melhor nela. A saia de l azul combinava elegantemente com a blusa de seda branca e o colete bordado. Devia ser uma mulher de bom gosto. Ele no sabia bem o que era, mas naquele rosto feminino havia algo interessante que o excitava de uma forma inesperada.
Com um sorriso generoso nos lbios bem-feitos, Cory inclinou-se para a frente e fitou-o com seus grandes olhos verde amendoados, disposta a seguir adiante com seu plano.
 Quero algo do senhor. No entanto, garanto-lhe que retribuirei a sua gentileza.
 Verdade? Bem, ento voc  diferente das muitas pessoas que vem a este escritrio.
  O senhor  um arquiteto bem-sucedido, acredito que se preocupe com a qualidade do seu trabalho e, principalmente, com o bem-estar das pessoas que convivem com as suas obras.
  O que a faz acreditar nisso, srta. Haines?
 Fiz algumas pesquisas, lendo tudo o que pude encontrar sobre o senhor e sua firma. Tenho certeza de que temos algo em comum e por isso vim aqui. O seu tempo  valioso e o meu tambm.
Cory no estava sendo arrogante, apenas objetiva, o que intrigava Slade.
 Bem, penso que estou em desvantagem, pois no sei nada sobre voc  replicou ele.
  Sou proprietria de uma empresa de paisagismo. Claro que  uma firma bem menor que a sua, mas tenho feito projetos paisagsticos h cinco anos nesta regio. No ano passado, ganhei o prmio municipal pelo parque comunitrio que planejei na parte norte da cidade. Amo este lugar, sr. Reeden. Quero que seja um local agradvel para as pessoas viverem. E  a que o senhor pode ajudar. Creio que pensa como eu.
  No acho nem um pouco ruim ganhar dinheiro, srta. Haines.
 Nem eu, claro!
 Ento, quanto vou gastar nisso?
  No quero seu dinheiro  Cory respondeu secamente, sentido seu rosto corar.  Desejo apenas dois terrenos seus.
 Terrenos valem muito dinheiro, srta. Haines!
 Na verdade, estou interessada no lote da rua Dow e no terreno de esquina da Cornell e da Cruikshank. Nem um dos dois  o que se pode chamar de imvel altamente rentvel.
Slade levantou-se encaminhou at a janela.
 Ento, por que voc os quer?
  O lote da rua Dow poderia ser um maravilhoso jardim aberto ao pblico. Do jeito que est,  um espao perdido, sem nenhum encanto.
 Realmente, a senhorita  bastante eloquente. Cory notou que ele estava sendo irnico. Precisava dele, entretanto no ia deixar que a humilhasse.
 Espero que no tenha me enganado. Ser que todas as reportagens que li sobre o senhor, sua integridade e o respeito por bons valores eram apenas fico?
Slade olhou-a fixamente, no podia acreditar que aquela mulher a sua frente podia ser to altiva! Seus olhos azuis analisaram o rosto feminino. Os lbios carnudos pareciam ser irresistivelmente macios, e os olhos amendoados eram brilhantes como estrelas.
  E o outro terreno na Cornell?  perguntou ele, tentando desviar os olhos de Cory.
 Poderia ser transformado num pequeno parque com bancos, canteiros e rvores.
 Quer dizer que voc projeta e eu pago?
 No precisa ser sarcstico, sr. Reeden.
 Bem, se a senhorita no gosta do meu jeito...
 Quero que essa idia v adiante. No desisto fcil, sr. Reeden.
 Ento, qual seria a sua contribuio?
  Se o senhor doar as propriedades para a cidade, fao os projetos, forneo as plantas e a mo-de-obra.
 Qual a razo de tanta generosidade, srta. Haines? Fazia tempo que Cory no encontrava algum que a irritasse tanto quanto esse homem!
  Acreditaria se eu dissesse que  puro altrusmo, sr. Reeden?
 Na minha opinio, isso no existe.
 Bem, ento acredite que simplesmente tenho prazer em transformar um espao sem valor em algo bonito e til.
 Isso vai ficar caro para voc.
 Tenho dinheiro.
 No sabia que paisagismo dava tanto lucro!
 No creio que a origem do meu dinheiro esteja em discusso, sr. Reeden. Posso pagar, e isso  o que interessa.
 Antes de qualquer compromisso, preciso ter certeza de que pode tocar os projetos  disse Slade, incisivo.
 Quer dizer que vai considerar a minha proposta?
 Estarei livre amanh de manh entre dez e onze e meia.
 timo! Virei aqui para peg-lo s dez e meia. Aqui est meu carto, caso necessite me telefonar. Foi um prazer conhec-lo, sr. Reeden.
 Igualmente, srta. Haines. At amanh.
Slade entregou-lhe o casaco e ficou observando-a enquanto o vestia. Ela era linda. Sentiu-se muito perturbado com sua presena. J fazia muito tempo que no experimentava aquela sensao.
Depois que Cory saiu do escritrio, ainda podia sentir seu perfume na sala. A imagem encantadora vinha a sua memria a todo momento. L fora, a chuva fina transformara-se em pequenos flocos de neve, que caam sem parar. Com certa melancolia, pensou que talvez devesse
voltar a Toronto assim que possvel. Antes, porm, visitaria sua me que morava em Halifax.
Aps a morte do pai de Slade, a sra. Lavnia Hargreave casou-se com um homem sensvel e amoroso. As recordaes que Slade tinha de seu pai verdadeiro eram uma mistura de ausncia e frieza de um homem idoso que se mantinha distante de emoes e intimidade. Aps onze anos de unio com o segundo marido, a sra. Lavnia encontrava-se viva de novo, morando sozinha numa pequena casa na cidade, rodeada por um vasto jardim. Visit-la era um prazer, pois sua me era espirituosa e amvel.
  Meu filho!  Que bom rev-lo!  exclamou a sra. Lavnia, ao abrir a porta para Slade.
  Ol, mame. Eu estava com saudade.
 Voc parece cansado. Deve estar precisando de umas frias. Quer que eu lhe prepare uma bebida?
  Sim, obrigado  ele respondeu, tirando o casaco pesado e sentando-se no confortvel sof, junto  lareira.
  Voc bem que podia ter comprado uma casa maior, mame. Por que no usa o dinheiro que coloquei na sua conta bancria?
 Slade, meu filho, amo esta casa. No tem escadas, estou perto de bibliotecas, livrarias e restaurantes. Pegando um txi, vou ao teatro e ao cinema em poucos minutos.  tudo de que preciso. Sou feliz aqui.
Ela preparou uma dose de usque com gelo para Slade e uma cuba-libre para si prpria. O rum, como ela mesma dizia, era uma desculpa para beber a coca-cola.
 A nica coisa que preciso fazer  arrumar o jardim
 a sra. Lavnia prosseguiu, sentando-se ao lado de Slade.
  Para qu? Deixe s o gramado que  mais fcil de cuidar.
  Sim, sei disso. Porm, amo flores e quero enfeitar a entrada. s vezes,  bom mudar. E voc? Alguma novidade?
 Que novidade? Estou bem, vivendo a vida que sempre vivi.
  Sei que talvez no devesse dizer isso, mas estou ficando cada vez mais velha e adoraria ser av de novo.
 Me, prefiro no tocar nesse assunto.
 Slade, j faz dois anos...
 Por favor, mame. Parece que foi ontem para mim.
 No pode se esconder para sempre no seu trabalho, meu filho.
  Sei que no. Quando encontrar algum, voc ser a primeira a saber.
  No vai encontrar ningum enquanto estiver na defensiva. Tudo bem. No falo mais nada. Detesto mes intrometidas. Voc me ajuda a mudar a cmoda no meu quarto?  muito pesada.
Depois de ajud-la com o mvel e alguns livros, Slade se despediu e entrou em seu carro. Enquanto dirigia com cuidado nas ruas escorregadias, pensou que sua me nunca havia mencionado a falta de um neto antes. Preferia que ela no tivesse tocado nesse assunto.
Sem saber aonde ir, decidiu passar no clube. Talvez encontrasse algum amigo para jogar uma partida de tnis. Resolveu olhar os horrios e as reservas de quadras no mural afixado na entrada do clube. Seus olhos se detiveram em um nome: Cory Haines. Ela havia reservado uma quadra para a manh seguinte, s sete e meia, com um tal de Joe Purchell. Slade ficou parado por um segundo, e em sua mente veio a imagem de Cory.
Claro que ela devia jogar tnis!  um jogo que exige reaes rpidas, concentrao e capacidade fsica. Alm disso, Cory no morava longe dali, de acordo com o carto que ela havia lhe dado no escritrio. Entrou em seu carro e foi embora.
s sete e meia da manh seguinte, Slade resolveu passar no clube. Tivera uma pssima noite mais uma vez, com sonhos agitados e excitantes que no o deixaram dormir. Lembrava apenas que uma mulher perturbara seu sono a noite toda: Cory Haines. O que mais o irritava era que ele podia controlar tudo, menos seus sonhos.
Desceu do carro, fechou a porta com fora e, subindo de dois em dois degraus, alcanou a parede de vidro de onde se avistavam as quadras de tnis cobertas. Colocou-se de tal forma que podia ver tudo, mas no podia ser visto. L estavam Cory e seu parceiro. Com habilidade, ela rebateu a bola para o fundo da quadra do adversrio de forma precisa e fatal. O oponente deu um grito de frustrao, enquanto Cory ria de alegria.
Ela usava short e camiseta brancos. Seus cabelos estavam presos num rabo-de-cavalo. Ao se posicionar para dar um saque, Slade pde observar o corpo feminino por um segundo. O suor escorrendo pelo pescoo, a forma generosa dos seios, a cintura bem delineada, as pernas bem torneadas e geis... Tudo se harmonizava naquela imagem sedutora. No pde deixar de analisar o parceiro de Cory; alto, magro, mais jovem e em melhor forma do que ele prprio, Slade. Detestou-o imediatamente. Ela jogava para ganhar. No entanto, tambm se divertia. Era to atraente nas quadras quanto em seus sonhos.
Slade voltou para o carro e partiu sem ser visto da mesma forma que chegara.
A deciso mais sensata que poderia tomar era recusar a proposta de Cory Haines com um sonoro no. Assim, no teria de v-la novamente. No queria se envolver com uma mulher que j tinha compromisso com outro. Especialmente, com uma pessoa to intensa, inteligente e linda como ela! Uma mulher assim no estava em seus planos.
                                          CAPITULO I
Quando chegou ao escritrio, naquela manh, Slade recomeou a trabalhar no projeto do porto da cidade, tentando se concentrar no que estava fazendo. Por ser muito disciplinado, conseguiu se dedicar ao trabalho, apesar de seu pensamento insistir em estar longe dali.
s dez e vinte e cinco, a sra. Minglewood bateu a sua porta para lembr-lo do encontro com Cory Haines. Ento, ele saiu do escritrio, desceu at o trreo e ficou aguardando a chegada da jovem. A neve havia derretido, e um sol muito fraco aquecia a fria paisagem. Pensando no que diria a Cory, Slade achou melhor ser direto e dizer a ela que no aceitaria a proposta. Assim, ambos no perderiam tempo inspecionando os terrenos. Depois, ele a esqueceria, e tudo voltaria ao normal.
Dez e trinta. Dez e trinta e cinco. Dez e quarenta... Comeou a ficar ansioso. No imaginou que ela iria se atrasar. Ento, s dez e quarenta e trs, uma pequena caminhonete verde com os dizeres Paisagismo Haines escritos nas laterais apareceu na rua e estacionou diante de Slade.
 Sinto muito, sr. Reeden. Nunca me atraso. Sinto muito mesmo  Cory falou, abrindo a porta para ele.
Slade pretendia ficar firme, informar sua deciso e voltar para o escritrio. Mas, ao contrrio, entrou no veculo, sentou-se ao lado dela e no pde evitar de observ-la. Parecia plida e cansada, bem diferente da mulher que vira jogar tnis no clube algumas horas antes.
  O que aconteceu?  ele perguntou.
 Nada. Odeio me atrasar.
  O que foi, Cory?  insistiu, sem perceber que a chamava pelo primeiro nome.
  Atrasei-me porque minha melhor amiga teve um beb hoje de manh. Assim que soube, fui para o hospital.
 Ela est bem?
 Sim, est tima!
 Voc no parece muito feliz.
 Claro que estou feliz, sr. Reeden! Muito feliz!
  mesmo?
Slade conseguia irrit-la. Aqueles olhos azuis queriam enxergar alm de sua alma. Cory detestava sentir-se to vulnervel na presena de um homem.
 E por que no estaria?  um lindo menino, com mais de trs quilos. Bem,  melhor irmos  Cornell primeiro.
Slade no sabia o que estava acontecendo, porm tinha certeza de que Cory estava muito perturbada.
  H alguma coisa que eu possa fazer por voc?  ele indagou, com voz suave.
 Sr. Reeden...  Parecia difcil deixar claro para ele que no deveria continuar fazendo aquelas perguntas.  Prefiro deixar minha vida pessoal fora das nossas conversas. Se eu no tivesse me atrasado, voc nunca saberia sobre Sue e o beb.
Negcios so negcios. Slade sabia muito bem que Cory estava certa.
  Quanto tempo voc levaria para executar esses dois projetos?  indagou Slade, mudando de assunto radicalmente.
  Estou sempre muito ocupada na primavera, por isso, j contratei mais mo-de-obra. Alm do mais, tenho um ajudante que  meu brao direito.
Slade logo pensou se esse ajudante no seria o parceiro do jogo de tnis. No entanto, conteve-se e no perguntou nada a respeito. Poderia ser muito pessoal.
 Acha que estariam prontos no vero?
 Com certeza  Cory afirmou, ao estacionar em frente a um terreno de esquina, com uma placa de venda.
Ambos desceram do veculo e caminharam at o terreno.
 Eu gostaria de usar plantas resistentes tambm ao inverno, assim o parque ficaria lindo o ano todo  ela prosseguiu.  No vero, as rvores oferecem bastante sombra, e seria agradvel colocar vrios bancos espalhados pelo parque.
 Que tal se colocssemos uma fonte?  Slade questionou, com inesperada empolgao.
  Encarece bem mais, porm seria maravilhoso  respondeu Cory.  Alm disso, os pssaros adorariam.
 Ento, vamos deixar as pessoas e os pssaros felizes! 
 Otimo! Que tal irmos ver o outro terreno?
 Claro!  Slade exclamou, e os dois se dirigiram  caminhonete.
 D uma olhada nesses projetos e diagramas que j fiz para esse trabalho  Cory props durante o trajeto.
Chegando  rua Dow, desceram do veculo, e Slade se deu conta de que o terreno era um espao feio e malcuidado.
 Voc vai ter bastante trabalho aqui, Cory.
   verdade. Vou precisar de muita terra e adubo. Alm disso, tenho de planejar a irrigao.
 Como pretende faz-la?
  Subterrnea  melhor.
  No  a mais barata  disse Slade, com conhecimento do assunto.
 Tudo o que estou pedindo  a doao dos terrenos. Li mais alguns artigos sobre voc ontem  noite, sobre os projetos nas reas pobres de Chicago, enquanto estudava arquitetura. Nem tudo deu certo, mas voc tentou.
 Voc ama o que faz, no ?
 Pode ter certeza de que sim.
Tudo bem. Darei os terrenos, mas com uma condio: fornecerei a terra, o adubo e algumas rvores para ambos os projetos. 
 No acredito! Voc aceita mesmo?
  Nem sei por que estou sendo to bom...
 Isso  maravilhoso! Voc  generoso. Estou muito feliz!  ela exclamou, segurando as mos de Slade entre as suas.
Por um momento, ele teve de se conter para no a abraar e a beijar. O vento frio daquela manh acariciava os cabelos de Cory e a deixava mais linda. Seu rosto estava iluminado de felicidade. Com muito esforo, afastou-se dela.
 No est entusiasmado?  perguntou Cory.
 Claro que estou. Acontece que sou mais velho e sei esconder minhas emoes.
 O que  isso? Voc tem apenas trinta e quatro anos. Vamos l, scio. Um aperto de mo, e selamos o nosso trato.
 Voc deveria usar luvas, Cory  disse ele quando apertou a mo dela.
 Sempre esqueo. At para trabalhar nos jardins. Gosto de sentir a terra, as plantas... Acho que  trauma de infncia.
  Seus pais no a deixavam brincar na terra?
  Eram muito rigorosos. Eu sempre estava impecavelmente vestida e longe da sujeira.
  Os seus olhos... so da cor do mar do Caribe  Slade falou de repente.
  Bem, nunca estive no Caribe. Os seus so bonitos tambm, de um azul profundo.  Como s ento percebesse que ainda estavam apertando as mos, Cory delicadamente se afastou.   melhor irmos. No quero que se atrase. Sei que  muito ocupado.
  Por favor, Cory. Pea ao seu advogado para fazer um contrato para ns. Se toda a parte legal ficar pronta antes de eu partir para Toronto, quero que jante comigo para celebrarmos.
  Acho que... seria bom.
 Pode me levar ao meu escritrio agora?
  Claro  respondeu Cory, e ambos entraram na caminhonete.
Conversaram sobre vrias coisas no caminho de volta. Quando chegaram  porta do edifcio, ela o fitou nos olhos e sorriu.
  Obrigada, Slade. No sei como agradecer.
 No h de que  ele respondeu e em seguida desceu do veculo.
Permaneceu ali, parado, vendo-a ir embora. Desejava que ela legalizasse tudo rapidamente. Afinal, ele queria muito jantar com Cory Haines assim que possvel.

                                       CAPITULO III
Uma semana depois, s sete e trinta da noite, Slade encontrava-se no bar do melhor restaurante da cidade, esperando Cory. Ela no quis que ele a pegasse em casa. Ento, combinaram de se encontrar no restaurante.
Usava o seu melhor terno e uma gravata nova de seda. Os cabelos negros estavam bem penteados, e os sapatos apresentavam um brilho militar, de que seu pai se orgulharia.
No fundo, Slade estava nervoso. Afinal, durante aquela semana, os dois s haviam se falado por telefone rapidamente. Mas nem por isso deixara de pensar e sonhar com ela todas as noites. Tinha certeza de que a queria. Era uma atrao forte que percorria todo seu corpo. Talvez, durante o jantar, perguntasse se ela era comprometida ou no.
s sete e trinta e um, a porta se abriu, e Cory Haines entrou. O corao de Slade comeou a bater, descompassado, como se tivesse acabado de jogar tnis. Sorriu e beijou-a no rosto. Ela usava um perfume inebriante.
 Voc foi pontual hoje  disse Slade.
 Por sorte, no tive problemas com amigas e bebs  brincou Cory.
Ele no conseguia tirar os olhos dela. Vestia uma saia azul-marinho, curta e justa com uma pequena fenda lateral. A blusa de seda branca tinha um decote generoso, que emoldurava o colo macio e alvo. Seus cabelos ruivos e brilhantes estavam presos num coque, que acentuava a nuca perfeita. A maquiagem era suave, apenas reforava seus pontos fortes: os olhos esverdeados e os lbios carnudos.
 Est maravilhosa!  elogiou-a Slade.
O garom os conduziu a uma das mesas e lhes entregou o menu. Quando os aperitivos chegaram, fizeram um brinde ao projeto. Conversaram sobre o cardpio, a poltica e os investimentos.
 Gostaria de danar, Cory?  ele indagou num determinado momento.
 Sim, obrigada.
A msica era agitada, e, portanto, no danariam juntos. Ela adorava msica. Seu corpo vibrava ao som da melodia. Mal sabia ela que, apesar de no o tocar, ainda assim seu modo de danar deixava Slade muito excitado.
Quando a msica acabou, voltaram para a mesa e saborearam uma deliciosa lagosta com molho de camares e uma garrafa de Cabernet Sauvignon.
Momentos mais tarde, o conjunto musical comeou a tocar uma melodia lenta.
 Vamos danar esta tambm, Cory?
Normalmente, ela preferia evitar danar msicas lentas, mas o vinho e a agradvel presena de Slade eram irresistveis. Ento, deixou-se conduzir por ele at a pista de danas, onde foi envolvida pelos braos fortes e puxada para junto do peito musculoso. Ela usava sapatos de salto alto, e seus rostos se tocaram.
Com o brao em volta da cintura de Cory, ele a puxou mais para si. A mulher que abraava perturbava suas noites de sono desde que a conhecera. Cory estava sbria, e o corpo esguio, involuntariamente, seguia o comando de Slade.
Sentia-se segura nos braos possessivos daquele homem que a enlaava com ardor. De repente, pensou em se afastar, mas seu instinto insistia em faz-la aproximar-se de Slade. Sempre estivera na defensiva, especialmente depois do que sofrera com Rick.
Ento, sentiu a mo que abraava sua cintura descer um pouco mais. Estava colada quele corpo viril, que dava mostras de desej-la. Sem querer, tropeou no p dele e olhou-o, atnita.
 Slade, eu no...
  Desculpe-me, Cory. Voc  linda e muito sensual. No posso negar que... voc me deixa louco de desejo.
Ela se libertou dele. Mesmo na penumbra do lugar, Slade pde ver medo em seus olhos. Cory virou-se, foi para a mesa e fixou o olhar no cardpio de sobremesas.
 Cory, por favor. Estamos no sculo vinte. No creio que eu seja o primeiro homem com quem sai.
 Acho que no quero sobremesa, apenas caf. 
Slade estava confuso. Ela agia como uma virgem medieval, e no como a mulher confiante que ele conhecera.
 O que acha de fingirmos que nada aconteceu? Que eu no estou louco para fazer amor com voc?  ele props.
Cory deixou o cardpio cair na mesa e olhou-o como se nunca o tivesse visto antes. Aquelas palavras ecoavam na sua cabea. Percebeu que estava fazendo papel de tola.
 Voc  casado, Slade? Noivo? Vive com algum?
 No. E voc?
Era a resposta que ela queria ouvir. Teve, ento, uma idia louca. Muito louca!
  Esse vinho  excelente!  ela exclamou.
  Por que quis saber o meu estado civil?
  Estava apenas pensando. S isso.
 Pensando em que, Cory?
 Slade, tive uma idia. Mas  loucura, e quero esquecer, por favor. Vamos falar de qualquer outra coisa. Acho at que vou comer uma sobremesa. Adoro torta de limo.
 Fale-me sobre a sua idia louca. Diz respeito a mim, por acaso?  insistiu ele.
 Ah! Com certeza! Porm, no tenho de lhe contar. Alis, no vou lhe contar.
  No tenho pressa. O restaurante no fecha antes da meia-noite, e agora so apenas nove e trinta. Posso esperar. Vou at pedir outra garrafa desse vinho que voc gostou tanto. Eu adoraria ter de carreg-la no colo  disse Slade, com um sorriso debochado.
 Tudo bem. Voc pediu! Quero ter um beb. Gostaria
que voc fosse o pai. Entretanto, depois que ou engravidar, no devemos mais nos ver. No quero me casar nem viver com voc.
Slade ficou imvel por alguns segundos que pareceram uma eternidade.
 No!  ele exclamou, com voz seca.
Cory pde ver angstia em seus olhos. Era como se tivesse tocado numa ferida aberta. No sabia o que se passava com ele.
 Slade, desculpe-me  falou suavemente. Percebendo que havia demonstrado toda a tristeza que tentava em vo esconder de si prprio, ele fechou os olhos para se recompor.
 Voc me surpreendeu. S isso. Nunca pensei que pudesse me propor algo desse tipo.
 Aposto que nunca se surpreende, Slade. Principalmente, com as mulheres.
 O que tem na cabea, Cory? Para voc,  fcil, no? Arranja um homem para apoiar seus projetos e ainda fazer um filho com voc!
 No h razo para ser indelicado comigo, Slade.
 Sou indelicado! No sabia disso?
 Por esse motivo, no queria lhe contar.  uma idia meio ridcula.
 Ridcula? Muito mais que isso. E, se quiser saber, a minha resposta  no.
 Est bem. J entendi tudo. Ento, pea logo a sobremesa, por favor.
 Voc  surpreendente! Faz uma proposta dessa e quer que eu pense em sobremesa!
 No seja infantil. J me deu a sua resposta, Slade. No h mais nada para discutirmos.
 Se no quer nada comigo, por que quis saber o meu estado civil?
 Acho que no seria certo trair a sua mulher.
 Acredita que ter um filho sozinha nessas condies  certo?
 Slade, no quero mais falar sobre isso. Pensei que havia sido clara.
 A quantos homens j fez essa proposta antes?
 Nenhum.
 Esqueceu o seu parceiro de tnis? Voc deve conhec-lo melhor do que a mim.
 Joe?  perguntou Cory, surpresa.  O que voc sabe sobre ele?
 Vi vocs jogando tnis no mesmo clube que frequento. Cory no gostou da idia de ter sido espionada.
  Nunca me ocorreu pedir isso a ele. Somos muito amigos, e a noiva dele, de quem gosto muito, no aprovaria a idia de jeito algum.
Slade no podia acreditar no que ouvia. Cory o surpreendia a todo momento.
 Ento... por que eu? Deve conhecer outros homens.
  Claro que sim. Mas quase todos moram aqui em Halifax, e no quero ficar encontrando com o pai de meu filho onde quer que eu v mais tarde. Voc  de Toronto, embora eu preferisse que fosse de Vancouver ou Austrlia!  Tentando no o encarar, Cory mostrou-se fria e continuou:  Alm disso, voc  bonito, saudvel e inteligente. Como se no bastasse, creio que seja um homem de bons princpios. Por fim, voc mesmo confessou estar... digamos... atrado por mim.
 Por que ser que me sinto insultado, mesmo quando fala das minhas qualidades? Pelo amor de Deus, Cory! No estou em leilo!
 Esta conversa  pura perda de tempo. Recusou a minha proposta, lembra-se?  replicou ela, enquanto chamava o garom com um gesto de mo.  Por favor, uma torta de limo e um caf para mim.
 Uma torta de chocolate e um caf para mim tambm  acrescentou Slade.
Depois que o garom se afastou, ele passou as mos pelos cabelos e posou seus olhos azuis nela. Tentava entender o que pretendia a mulher linda que estava a sua frente.
 Estou curioso. Voc  to jovem... Por que essa sbita vontade de procriar?
 No sou to jovem assim. Tenho trinta e um anos e sempre quis ter um filho. Acredito que a maternidade me completar como mulher, algo que o meu trabalho no pode fazer sozinho.
 Por que no se casa, constitui uma famlia estvel e tem quantos filhos quiser? Voc  uma mulher maravilhosa, Cory.
 Voc no entende... No quero me casar. Por favor, vamos esquecer esse assunto, Slade. No sei por que ainda estamos falando sobre isso  disse, com os olhos marejados de lgrimas.
 Nossas sobremesas esto chegando  ele informou, mudando de assunto, ao ver o garom se aproximar.
Aps serem servidos, Slade prosseguiu:
  Se quiser, eu a deixarei provar a minha torta de chocolate. Que tal?  ele props, oferecendo-lhe um pouco na colher.
Cory sorriu, fechou os olhos e inclinou-se para a frente para saborear a torta deliciosa.
 Est simplesmente incrvel, Slade!
O rosto dela se iluminou, estava lindo. Parecia uma criana que no resistia a chocolate. Abriu os olhos e sorriu para ele.
 Quer experimentar um pouco da minha torta de limo?
 No, obrigado, Cory. O que fazia antes de ter sua firma de paisagismo?
 Assim que me formei em administrao de empresas, comecei a trabalhar numa agncia de viagens. Tinha apenas dezenove anos.
Preferiu no mencionar que fora nessa mesma poca que conhecera Rick. Talvez fosse melhor no tocar nessa parte triste de sua vida.
 Voc no me parece do tipo que goste de ficar presa em um escritrio o dia todo.
 No sou mesmo. Foi um trabalho interessante, ao qual me dediquei muito. Cheguei ao cargo de gerente e, finalmente, comprei a agncia.
  Parabns! Vejo que  uma mulher de negcios.
 Aos poucos, comecei a me interessar por paisagismo. Fiz um curso profissionalizante e, depois de trs anos, vendi a agncia de viagens. Decidi mudar de cidade e vim para Halifax, onde abri minha firma.
 Fico feliz em saber que  bem-sucedida e que gosta do que faz, Cory.
  Desculpe-me. Infelizmente, devo ir agora. Tenho um compromisso amanh bem cedo.
 Claro. Podemos pegar um mesmo txi. Assim, deixo-a em casa primeiro.
 Obrigada, Slade, mas estou com a minha caminhonete, e est to suja que nem vou lhe oferecer carona.
 No se preocupe. Apesar do frio, acho at que vou caminhar um pouco.
Ele pagou a conta, e ambos se levantaram e caminharam em direo  sada. Slade a acompanhou at a caminhonete. A noite estava fria, porm agradvel. Cory queria ir embora quanto antes, afinal fez papel de boba ao pedir a um estranho que fosse pai de seu filho.
 Foi muito bom conhec-la, Cory. Boa sorte com seus projetos.
Como no tinha nada a perder e fosse impossvel resistir quele rosto perfeito, Slade aproximou-se dela e beijou seus lbios entreabertos, que eram quentes e macios. Foi um beijo rpido, mas ntimo o suficiente para deix-lo ainda mais louco por ela. Para sua alegria, notou que Cory no se mostrou indiferente a ele.
Depois de entrar na caminhonete, ela bateu a porta e partiu o mais rpido possvel.
                                       CAPITULO IV
Alguns dias se passaram, e, apesar de ter estado muito ocupado com reunies e projetos, Slade no conseguia esquecer Cory e a idia de ter um filho sozinha. No entendia por que ela no queria se casar. Talvez fosse viva ou divorciada. Lembrou-se do momento em que a tivera nos braos enquanto danavam. Podia at sentir seu perfume e o calor do beijo da despedida. Cory correspondera, mas, ao mesmo tempo, parecia distante.
No sabia por que ainda pensava nela e naquela idia maluca. Havia recusado a proposta, porm, se aceitasse, poderia v-la e possu-la apenas uma vez. Com sorte, talvez a esquecesse depois de uma noite de amor. Assim, Cory sairia de uma vez de sua vida. Alm disso, se ela engravidasse, ele teria o filho que tanto queria. Estava certo de que Cory seria uma boa me. Ele seria um pai ausente, sem nenhum envolvimento. De certa forma, muito conveniente para Slade.
Na tera-feira  noite, foi ao clube, pois combinara com seu amigo Tom de jogar uma partida de tnis. Pelo menos, enquanto jogasse, no estaria pensando em Cory. Jogou com fria, lutando por cada ponto. Estava concentrado no jogo de tal forma que no percebeu que um pequeno grupo de pessoas assistia  partida. Certamente, ele tambm no viu que Cory estava entre eles, observando-o.
Apesar de alto e musculoso, Slade se movia com extrema agilidade na quadra. Estava sempre no ataque, e aquele simples jogo amistoso era disputado como uma final de campeonato. Por fim, ganhou de Tom por poucos pontos. Cumprimentaram-se, e Slade dirigiu-se para o vestirio. No caminho, encontrou Cory.
  Ol, Cory! Pensei que s viesse aqui de manh.
  verdade. Porm, hoje joguei com uma amiga que s pode vir  noite.
 Estou precisando de uma ducha agora  disse Slade, suado, com a camiseta colada ao corpo.  Gostaria de tomar uma cerveja, na lanchonete do clube comigo daqui a pouco? Poderamos conversar mais sobre aquela sua idia.
 Para mim, esse assunto est encerrado. No quero mais falar sobre isso, Slade.
  Bem...  que com certas condies... talvez eu at aceitasse a sua proposta.
  Est bem. Eu o encontrarei l em meia hora  concordou ela.
Quando Cory entrou na lanchonete, todos os olhares masculinos se voltaram para a sua direo. Como se um sentimento de posse o dominasse, Slade levantou-se rapidamente e acenou para ela. Vestindo um jeans justo e uma jaqueta de couro preta curta, Cory sorriu e aproximou-se de Slade.
  Voc est linda. Sente-se  Slade falou, aps a beijar no rosto.
 No pensei que fosse encontr-lo no clube.
  Vou viajar na sexta-feira  noite, mas posso at adiar minha passagem para domingo. Assim, passaramos mais tempo juntos... para nos conhecer melhor... e discutirmos a sua proposta.
 Slade, voc no me entendeu. Existem outros meios. Inseminao artificial, por exemplo.
 O qu?
 Exatamente o que ouviu.  to normal! Afinal, mal nos conhecemos. Como podemos pensar em uma noite de amor?
 Meu Deus! Voc sempre me surpreende, Cory. Fazer um filho artificialmente!
 Entretanto, o nosso relacionamento no ... digamos... natural. Muitas pessoas fazem assim. At casais que vivem juntos e se amam.
 No sou "muitas pessoas". Estamos perdendo tempo. Sou contra. Acho melhor que procure outro.
Cory no teria coragem de falar sobre isso com outro homem. Por alguns segundos, ficou observando Slade, que agora estava srio e distante. Com uma expresso de preocupao no rosto anguloso, ele fitava o copo de cerveja.
 No quero ningum... seno voc, Slade. Ele levantou os olhos tristes.
  Mas deseja que eu desaparea depois que voc engravidar...
 Quero ser me solteira.
 O que tem contra o casamento, Cory?
  Digamos que j vi esse "filme". Alm disso, sou independente  financeiramente.  No  preciso  me casar para viver.
 O que aconteceu, Cory?
 J fui casada e no quero repetir o erro. No vou dizer mais nada sobre isso, Slade. E acho que tambm no vai me contar por que resolveu aceitar a minha proposta, vai?
 No.
  Est bem. Nem precisa. Afinal, no estamos tentando construir uma relao, apenas fazer um filho.
No fundo, Slade tinha medo de um relacionamento mais srio desde que tudo acontecera dois anos atrs. Mesmo assim, chocava-se com a frieza de Cory.
 Tenho uma tima sade. E voc?
 Excelente  respondeu ela.
 De quanto acha que precisar para criar a criana?
 Isso no tem nada a ver com dinheiro.
  Gostaria que me avisasse assim que soubesse se est grvida ou no.
 No quero que me pressione, por favor.
  Digo isso porque, se voc no tiver engravidado, vai querer tentar de novo, no?
  horrvel tratarmos desse assunto assim. Nem parece que estamos falando de um beb.
 Cory, quero saber quando o beb nascer.
 Vou pensar nisso.
 Eu disse que tinha algumas condies, lembra-se? Alis, tenho mais trs.
 Por favor, Slade. Est ficando cada vez mais difcil.
 Primeiro, se precisar de ajuda, vai me procurar imediatamente. Segundo, vou entrar em contato com voc uma vez por ano para saber como esto passando. Por ltimo, assim que souber que est grvida, mudarei meu testamento. Quero que voc e o beb sejam meus herdeiros.
 No sei, Slade. Voc est complicando as coisas.
 Veja bem, Cory, estamos falando de um filho. Disse que me admirava por ter bons princpios, s estou sendo coerente.
Ela sabia que Slade estava certo, no entanto no queria se deixar levar por ele.
 Acho que devemos esquecer isso tudo, Slade. Est ficando mais difcil do que eu pensava. O que h de errado em querer um beb? Odiei estar casada e no quero me apaixonar de novo. S quero um filho.
 J pensou em adotar uma criana?
 A lista de espera  enorme, e isso levar uma eternidade. Sei que no vai ser fcil conciliar o meu trabalho e cuidar de um beb sozinha, mas agora tenho um ajudante que  meu brao direito. Em breve, Dillon estar tomando conta de boa parte da firma.
 Por que no pede a esse tal de Dillon para ser o pai?
 Ah, no! Em princpio, at que ele tentou me namorar.  muito paquerador, porm somos s bons amigos. Slade, tenho muito amor para dar. Vou ser uma tima me.
  Se eu no tivesse certeza disso, no estaria aqui, conversando com voc agora.
 No sei por que estou chorando  ela murmurou, enquanto lgrimas rolavam por seu rosto.  Acho que voc  um homem bom, Slade. Isso mexe comigo.
Ele fcou emocionado. Cory era incrvel. To arrogante e ao mesmo tempo to frgil. Tocou sua mo gentilmente e tentou consol-la.
  Cory, no chore. V para casa e pense nas minhas condies. Se concordar com o que pedi, est tudo certo. No estou fazendo nenhuma exigncia absurda.
 Quer dizer que, se eu aceitar suas condies, voc... ser o pai?
 Isso mesmo. Amanh  noite, telefonarei para voc, e me dar a sua resposta.
  Estarei em casa por volta de oito e trinta. Vou embora agora, Slade. Estou cansada.
 Est bem. Falaremos amanh  noite.

                                          CAPITULO V
Com a desculpa de que o assunto era muito delicado para ser tratado por telefone, Slade resolveu ir pessoalmente  casa de Cory. Na verdade, estava curioso de saber onde e como ela vivia. Era uma mulher surpreendente e misteriosa, que o encantava a todo momento. No se lembrava de ter estado to interessado em algum havia muito tempo. A idia de ser pai fazia-o tremer. Afinal, ainda trazia na alma recordaes que o entristeciam muito.
Foi com o corao batendo acelerado, que dirigiu seu carro pela rua arborizada. A casa dela era de esquina. Parou a alguns metros de distncia e ficou apreciando o sobrado pequeno, pintado de branco, com janelas, portas e telhado azul-claros. Uma cerca branca de madeira contornava todo o terreno, emoldurado por um colorido canteiro de flores. De onde estava, Slade podia observar o jardim no fundo da casa. Havia rvores frutferas, roseiras e uma pequena fonte para os pssaros. Deveria ser agradvel ficar ali nas tardes de vero. Aps estacionar o carro diante do sobrado, dirigiu-se  porta de entrada e tocou a campainha.
Cory tivera um dia cheio, visitando vrias propriedades e supervisionando o trabalho de seus empregados. Fizera compras com Dillon e fechara novos contratos.
Como era seu costume, ao chegar em casa, tomara um banho mais demorado para aliviar as tenses do trabalho e vestira apenas uma camisola de malha fininha verde-clara, que envolvia seu corpo delgado e descia at os tornozelos.
Quando a campainha tocou, terminou de escovar os cabelos e desceu, descala. No estava esperando nenhuma visita, apenas o telefonema de Slade. Ao abrir a porta, ficou surpresa por v-lo parado a sua frente.
 Ah...  voc...  Cory sussurrou.
 Espero que no esteja incomodando. Achei que
nosso assunto era muito delicado e deveria ser tratado pessoalmente.
  Tudo bem. Entre, por favor  ela falou, sem ter outra alternativa.
 Se no se importar, vou tirar as minhas botas, pois no quero sujar seu tapete.
  Fique  vontade. Eu ia acender a lareira. Aceita alguma coisa?
 Um caf seria timo. Deixe que eu cuido do fogo  Slade disse, tirando a jaqueta de couro.
Cory foi para a cozinha. Naquele momento, daria qualquer coisa para voltar no tempo e nunca ter mencionado sobre o desejo de ter um beb com Slade. Estava nervosa. Derrubou p de caf na pia e quase deixou cair o bule no cho. Preparou duas xcaras de caf e colocou um pouco de biscoitos num pratinho. Levou um susto quando o viu aparecer a seu lado.
 Bonita cozinha  ele murmurou, olhando os armrios de madeira com detalhes de cobre.  No achei os fsforos.
 Esto embaixo da pia. Deixe que eu os pego.
Os dois se abaixaram ao mesmo tempo, e seus olhares se encontraram. Os longos cabelos ruivos de Cory estavam soltos, Slade no resistiu e os tocou.
 Nunca a vi de cabelos soltos. Fica linda. Deveria us-los sempre assim.
 Obrigada. Mas atrapalham quando estou trabalhando. Slade a segurou pelos ombros e a beijou nos lbios.
Ela correspondeu com ardor, como se estivesse esperando por aquele momento. Sentiu a boca quente e mida sobre sua. Talvez no fosse to m idia assim beij-lo, afinal, ele no era Rick. Quando finalmente se afastaram, ela no conseguia ordenar suas emoes.
 Acho que no devemos parar por aqui, Cory.
 Por favor, Slade. Vamos para a sala. No consigo pensar direito quando estou muito perto de voc. Aqui esto os fsforos. V acender a lareira.
Instantes depois, quando ela surgiu na sala, segurando a bandeja com o caf e os biscoitos, as chamas j crepitavam na lareira, e Slade a esperava, sentado no sof florido com almofadas soltas.
 S no entendo por que voc quer ter contato comigo a cada ano?  Cory indagou de repente, sentando-se na poltrona em frente a ele.
 Quero apenas saber se est tudo bem. Voc  muito independente. Talvez no me procure mesmo se precisar.
Ele tinha razo, pensou Cory.
 E se eu conhecer algum... e me envolver. Voc me entende, no? Ainda assim me telefonaria?
 Acho que teremos de pensar nisso quando acontecer.
 Slade, o que realmente quero  ficar grvida e... sozinha.
 J entendi isso. Porm, minhas condies so essas. Slade era o homem ideal para ser o pai de seu filho.
Afinal, v-lo uma vez por ano no seria to difcil assim.
  Est bem, Slade. Aceito as suas condies.
Ele se levantou, pegou as mos de Cory e ajudou-a a, se levantar.
 Vai dar tudo certo. No se preocupe. Acredite em mim.  ele murmurou, roando seus lbios nos dela.
Cory fechou os olhos, esperando por outro beijo.
 Por que no vamos para o seu quarto agora?
 Agora?  perguntou, assustada.  Pensei que...
 Afinal, quer ficar grvida ou no?  questionou Slade, acariciando os cabelos ruivos e beijando-lhe o pescoo.
 Claro que sim! Apenas pensei que seria... num hotel.
  Aqui  o centro da sua vida, Cory. No conheo lugar melhor do que este. Acho que voc no gosta que eu esteja aqui, no ?
 Sim! Nunca dormi com ningum nesta casa.
 Est com medo?
 Claro que estou. Voc  praticamente um... estranho para mim.
  No h melhor meio de nos conhecermos do que fazendo amor  ele afirmou, tomando-a pela cintura e beijando-a com paixo.
Em seguida, pegou-a no colo e, sob a orientao de Cory, levou-a para o quarto, colocando-a na cama. No mesmo instante, Slade tirou suas roupas e juntou-se a ela, enlouquecendo-a com suas carcias enquanto a despia tambm.
Cory sentiu uma emoo at ento desconhecida. No podia resistir a Slade. Aquele homem, que mais parecia um deus grego, sabia como seduzi-la. Mas era to arrogante! Contudo, no poderia perder aquela chance. De maneira alguma, teria coragem de ir to longe novamente com outro homem. Alm disso, sabia que ele a queria desde que se conheceram. Podia ver em seus olhos azuis, que pareciam querer despi-la a todo momento. Slade era puro desejo. Estar com ele ali era uma sensao mgica. Sentir seu corpo, seu cheiro, seu calor...
Para o inferno com aquela defensiva toda! Na verdade, queria se entregar quela louca paixo, mergulhando nas guas profundas do desejo. Ansiava por sentir seu corpo delgado arder nas mos daquele homem, que sabia lev-la  loucura com um simples olhar. Nada era mais prazeroso do que estar com ele no seu quarto, na sua cama, oferecendo seu corpo nu, carente de prazer. Adorou a sensao do torso musculoso comprimindo o seu e das mos fortes acariciando seus seios rijos e fartos, que se ofereciam, ansiosos por carinho,  boca quente, que os envolvia com sofreguido.
No momento seguinte, a lngua de Slade explorava sua boca mida, e as mos fortes sabiamente percorria cada centmetro do seu corpo, que se contorcia de xtase. Sabia toc-la com paixo e desejo, queria v-la gemer de prazer at no aguentar mais. Ele conhecia os segredos da arte de fazer amor como ningum!
Slade fitou-a nos olhos e, beijando-a com ardor, penetrou no calor daquele corpo, explodindo num prazer desconhecido. Sentia seu corao bater mais forte e a respiraao descompassada. Ela tambm o desejava e, mais do que nunca, tinha certeza de que jamais sentira aquela sensao de entrega em sua vida. Ambos sabiam que no seriam mais os mesmos depois daquela noite.
Na manh seguinte, os primeiros raios de sol que entraram pelas frestas da persiana ainda os encontraram abraados na cama.
  Aonde voc vai?  perguntou Slade, ao v-la levantar-se da cama.
 Tenho um compromisso logo cedo. Preciso me arrumar.
 Cory, voc  uma mulher maravilhosa. Nunca senti com outra mulher o que senti com voc  ele falou, acompanhando-a at o chuveiro.
Ento, com carinho, segurou-a pelos ombros e beijou-a. Depois, comeou a acariciar o corpo frgil, detendo-se nos seios delicados at ficarem intumescidos.
 Voc  linda, Cory. Fiquei louco por voc desde o primeiro momento em que a vi.
 Slade...  sussurrou, sentindo seu corpo responder prontamente.
 Vou reservar uma mesa para hoje  noite no novo restaurante italiano da cidade. Aceita o meu convite para jantar?
 Sim.
 O que acha de eu passar algum tempo aqui com voc?
 Eu gostaria muito...  ela respondeu, envolta pelos braos dele.
 J havia pensado nisso?
 Sim, mas no teria coragem de pedir.
 Sem coragem? Nunca conheci uma mulher to corajosa. Voc  incrvel, Cory  disse Slade, apertando-a contra seu corpo nu e beijando-a com paixo.
Ela estava confusa. Aquela cena to domstica estava longe de ser o trato por eles estabelecido! Eles combinaram fazer um filho, e  no entanto, havia muito mais sentimento do que ela esperava. Era como se estivessem vivendo um relacionamento que no estava em seus planos.
 O que um beijo to apaixonado tem a ver com gravidez?  perguntou Cory friamente, afastando-se dele.
Slade no podia acreditar no que acabara de ouvir. Ele, que sempre se orgulhava de seu raciocnio rpido, ficou sem reao. Cory estava sendo fria com ele sem nenhum motivo.
 Desculpe-me, Slade. Eu no devia ter falado isso.
 Vamos nos atrasar.  melhor nos apressarmos  disse ele, visivelmente aborrecido.
 Por favor, Slade. Sinto muito. 
  Vou tomar banho no banheiro l embaixo. Pode usar este aqui.  Em seguida, retirou-se.
Cory tomou banho e se vestiu rpido. Talvez ele fosse embora sem se despedir. Desceu a escada depressa e o encontrou perto da porta, pronto para sair.
 Venho peg-la s seis e quarenta e cinco, se  que ainda deseja jantar fora hoje.
 Detesto quando alguma deciso  tomada, e isso afeta outros.
 Voc  especialista nisso. J se esqueceu de que quer que eu suma da sua vida depois desse fim de semana?
 Sou muito grata a voc pela noite passada, Slade. Muito obrigada mesmo.
Cory parecia to distante e diferente da mulher que ele tivera em seus braos durante a noite. Ele odiou o comentrio sobre a gravidez, mas ela estava certa. Aquelas horas de amor no significavam nada. O que importava para Cory era a gravidez, e eles haviam ido mais longe que isso. Muito alm do combinado.
  Voltarei mais tarde para jantarmos fora  disse ele, antes de fechar a porta atrs de si.
Por um momento, ela ficou imvel ali na sala, olhando as cinzas na lareira que no ardiam mais. O fogo havia se apagado. Pensou em Slade e nas duas semanas que mudaram sua vida. O que acontecera naquela noite no havia sido planejado. Cory no queria nem pensar no que estava para vir depois daquele fim de semana.
                                        CAPTULO VI
Assim que Slade entrou no escritrio, a sra. Minglewood lhe entregou um fax que chegara de Montreal. Ele o leu, fez dois telefonemas e, em seguida, comeou a arrumar alguns papis na mesa.
 Por favor, sra. Minglewood, tenho de ir para Montreal esta tarde. Consiga uma reserva em um vo, cancele meu hotel aqui em Halifax e providencie um txi para me levar ao aeroporto.
  Sim, sr. Reeden.
Mais do que depressa, Slade procurou o nmero do telefone da Paisagismo Haines e discou-o. Do outro lado da linha, um homem atendeu. Devia ser Dillon, o brao direito de Cory.
 Eu gostaria de falar com a srta, Haines.
 Ela no est no momento  respondeu Dillon.  Quer deixar algum recado?
  Diga-lhe para ligar para Slade Reeden assim que chegar, por favor.
 Est certo.
Instantes aps Slade ter desligado o telefone, a sra. Minglewood entrou na sala com algumas opes de horrios de vos para Montreal. Ele escolheu o mais cedo possvel. Nas duas horas seguintes, ficou trabalhando a fim de deixar tudo pronto para a viagem.
Em Montreal, teria uma reunio com o presidente de uma firma multinacional, com quem esperava fazer vrios negcios. Eram contratos importantes que Slade havia dedicado muito tempo para conseguir. De forma alguma, poderia deixar de ir. Ento, o telefone tocou, e ele atendeu prontamente.
 Al?
 Slade?
  Sim. Sou eu.
  Cory quem est falando.
  Ol, Cory. Liguei para avis-la de que tenho de viajar para Montreal hoje  tarde. De l, irei para Vancouver, onde ficarei uma semana. Dependendo dos contratos que eu conseguir fechar, talvez tenha de ir a Hong-Kong em seguida. Sinto muito.
 Ah... sei...
 Esse contrato em Montreal  muito importante, seno... eu no iria.
 Acho que deve ir  ela disse friamente.
 Que droga! Voc  to educada! Por acaso, no est  desapontada?
 Claro  respondeu sem qualquer emoo.
 Sabe quanto eu gostaria de passar o fim de semana com voc. Odeio ter de falar tudo isso pelo telefone, mas nem podemos almoar juntos. Um txi vir me apanhar em meia hora.
 Eu no poderia mesmo. Tenho um compromisso ao meio-dia.
  Est bem, Cory. Vou ligar para Montreal e dizer que s poderei ir para l na segunda-feira  ele falou, batendo com o punho cerrado na mesa.
 Nem pense nisso, Slade  ela replicou suavemente.
 Voc... se importa comigo? H uma grande possibilidade de j ter conseguido o que queria. No sou mais necessrio em sua vida, no ?
 Slade, por favor...
  No quero fazer um drama de tudo isso. Ligarei em um ms para saber se est grvida. Tenho certeza de que vai rezar para que esteja, assim no precisar me ver de novo.
 Voc parece criana, Slade.
 Tenho de ir agora. Falaremos em um ms  disse, batendo o telefone com fora desnecessria.
Em seguida, recolheu todos os documentos, colocou o casaco e despediu-se da secretria. L fora, o txi o esperava com destino ao hotel, onde pegaria sua bagagem e ento seguiria para o aeroporto.
Cory Haines significava um perigo que era melhor ser evitado. Ao mesmo tempo que o seduzia, ela tambm o afastava. Era doce e sensual, mas sabia ser fria e calculista. Nunca havia se envolvido com uma mulher to intensa e, s de pensar nela, sentia seu corpo enrijecer de desejo. Estava apaixonado e o melhor que poderia fazer era afastar-se de Cory.
At que esse compromisso em Montreal era bem oportuno. Quanto mais longe ficasse dela, melhor.

Ao desligar o telefone, Cory estava muito triste, pois no tivera tempo de falar tudo o que sentia. No tivera oportunidade de dizer que Dillon estava ao seu lado o tempo todo, prestando ateno na conversa. Ficara realmente infeliz quando soubera que Slade ficaria longe por tanto tempo.
Montreal, Vancouver, Hong-Kong. Que importava! No era isso que ela tanto queria? O homem com quem tivera a mais inesquecvel noite de amor estaria bem longe. Por que estava to triste, ento?
 Est tudo bem, Cory?  perguntou Dillon.
 Sim... Era s uma pessoa avisando que teria de viajar...
 Um amigo?
  Sim. Por qu?
 Parece que ficou bem triste.
 No quero falar sobre isso, Dillon. Vou sair agora, pois tenho um compromisso na hora do almoo. Voltarei mais tarde.

Quatro semanas se passaram. Slade fechou o contrato em Montreal, conseguiu prsperos contatos em Vancouver e a viagem a Hong-Kong foi um sucesso. Durante todo o ms, ele trabalhou muito e, sempre que tinha algum tempo livre  noite, ia jogar tnis ou correr nas ruas, para se exercitar um pouco e mais tarde conseguir dormir.
Apesar de tudo, Cory estava sempre em sua mente. Seu corao de homem estava vulnervel aos caprichos daquela mulher. Havia mais de dois anos que se mantinha longe de qualquer envolvimento amoroso. Achava que era um louco por ter se apaixonado por algum que mal conhecia. Fora tolice pensar que se dormisse com ela uma s vez a esqueceria para sempre. Pelo contrrio, depois de provar o doce mel da paixo, queria t-la nos braos novamente. Como pudera concordar com aquela idia louca de fazer um filho? Ser que Cory estava grvida? Tentava se convencer de que no mais repetiria a tentativa.
Decidido a pr um fim em tudo, Slade voltou para o seu apartamento, onde tudo to limpo e imaculadamente arrumado causava-lhe profundo tdio. Assim que entrou, pegou o telefone e discou o nmero de Cory. Escutou impacientemente o aparelho chamar vrias vezes, at que ouviu a mensagem gravada na secretria eletrnica.
 Por favor, deixe seu nome e telefone. Ligarei assim que possvel  dizia a gravao.
  Cory, ligue para mim a qualquer hora. Estou em Toronto. Slade.
Onde e com quem estaria ela s dez horas da noite em Halifax?
Agora teria de ficar acordado, aguardando que ela telefonasse. Ligou a televiso para esperar o tempo passar. 
Naquela noite, Cory foi visitar Sue. Eram amigas havia vrios anos e sempre se ajudaram muito.
Sue era casada com Ralph, e tinham dois filhos. Sempre muito ocupada com as crianas e a casa, dedicava-se totalmente  famlia. Foi com carinho e alegria que recebeu a amiga que no via fazia algum tempo.
  Cory! Que bom rev-la! Entre.
 Como vai, Sue? Espero no estar atrapalhando.
 De jeito algum. Fiquei cuidando das crianas o dia inteiro. Ralph est viajando. Tudo que preciso  de uma xcara de caf e uma boa amiga como voc para conversar.
 Eu tambm, Sue. Preciso muito conversar.
 O que houve, Cory?
 Estou grvida!
 O que?!  indagou Sue, surpresa.
 Fui ao mdico hoje, e ele confirmou as minhas suspeitas. O beb nascer em dezembro.
 Est feliz?
 Nunca estive to feliz  respondeu Cory, abraando a amiga.
  Fico contente por voc. No sabia que estava namorando. Quem  o pai?
 Sue, voc me conhece e sabe que nunca quis me casar novamente, porm sempre sonhei em ser me. No deu certo com Rick, mas continuei alimentando este sonho.
  Sei quanto sofreu, Cory.
 No ms passado, conheci um homem que no mora aqui. Ele concordou em... voc sabe. Se eu engravidasse, seria me solteira. Foi o que aconteceu.
 Ele ir ajud-la financeiramente?
 No quero ajuda alguma.
 Quer dizer que nunca mais iro se ver?
 Exato  afirmou Cory, com o semblante triste. 
 Voc gostou dele?
 Muito. Sei que  uma boa pessoa, no entanto no quero nenhum compromisso.
 Ele a pediu em casamento, Cory?
 No! Foi s uma noite. Nada mais.
 Pode ser que ele seja casado ou tenha algum...
 No.  totalmente desimpedido.
 Ele j sabe que est grvida?  perguntou a amiga,
preocupada.
  Claro que no! Fiquei sabendo hoje  tarde. Sue, no quero mais falar desse homem. O importante  que vou ter um beb.
  maravilhoso, Cory. Conte comigo para o que precisar. Sabe, acho que foi muito infeliz com Rick. Pensei que nunca mais conseguiria superar aquele problema.
 S eu sei o que passei, Sue. Esse homem que conheci, porm, foi muito bom comigo. Fizemos um trato de no nos envolver. E assim ser  explicou Cory, com os olhos cheios de lgrimas.
Sue entendia a amiga, entretanto receava que, como estava sozinha, as dificuldades fossem ainda maiores para Cory.
  Na minha opinio, vocs deveriam pensar numa outra soluo para essa situao, Cory. Posso lhe garantir que ser me no  nada fcil, embora traga muitas alegrias. Criar um filho sozinha no  impossvel, mas torna-se uma tarefa bem mais rdua.
  verdade, Sue. Mas no consigo pensar em viver com algum de novo.
 Conviver  difcil.  um jogo de dar e receber. Nem todo mundo  igual a Rick. Ele era o problema, no o casamento.
 Acha que eu no seria uma boa me s por no ter um marido?
 De jeito algum, Cory! Voc  uma tima pessoa, com muito amor para dar. Apenas acho que  muito bom ter um homem a seu lado que seja seu amigo, amante e pai dos seus filhos, enfim um marido.
  Sofri muito nas mos de Rick. Ele me batia, humilhava e deixava claro que eu era um ser desprezvel. No quero mais sofrer, Sue. Nunca mais.
  No chore, Cory. Pense no seu beb. Vai dar tudo certo.
 Obrigada,  sempre to amvel. Tenho de ir agora, j  tarde.
Quando chegou em casa, Cory percebeu que havia uma mensagem na secretria eletrnica. A voz de Slade soou to alta dentro da sala que a fez sentar-se na cadeira mais prxima. Como seria possvel ele ter ligado no mesmo dia em que ela soubera estar grvida? Ouvir aquela voz a fez se lembrar do rosto marcante, dos olhos azuis profundos e do corpo msculo que a levou  loucura naquela noite de amor.
Depois daqueles momentos que passaram juntos, sua vida mudara para sempre. Sabia que nunca seria to feliz nos braos de outro homem como fora com Slade. O melhor que tinha a fazer era telefonar para ele imediatamente e contar-lhe sobre a gravidez. Ento, s teria de falar com ele quando o beb nascesse, em dezembro.
  Slade? Sou eu, Cory. Recebi o seu recado. Voc est bem?
  Sim, mas tenho trabalhado muito. Essas ltimas semanas pareceram anos. E voc? Est grvida?
  Sim. estou.
 Voc... planejava me contar? - perguntou ele, em dvida.
 Soube hoje, Slade.
 Entendo... Para quando  o beb?
 Nascer aps o Natal.
 Como est se sentindo, Cory?
 Bem. E voc?
  Confuso. Nunca deveria ter feito amor com voc. Acho que fui um tolo.
 Agora  tarde, Slade. Prometo que ligarei quando o beb nascer.
 E... mais nada?
 Foi o que combinamos, lembra-se?
 Acho que no tem um pingo de emoo nesse corao de pedra, Cory.
 No vou ficar discutindo pelo telefone. Se voc no tem mais nada a dizer,  melhor desligarmos.
   sempre to fcil para voc encerrar uma conversa, no?
Sem fazer nenhum comentrio, Cory desligou o telefone e comeou a chorar. Slade era to arrogante, mas havia tanta emoo entre eles!
No dia seguinte, ela resolveu contar a Dillon que estava grvida. Afinal, Cory o via todos os dias, e ele a ajudava muito no trabalho.
  verdade? No sabia que tinha namorado  Dillon falou, perplexo.
  De fato, no tenho. Serei me solteira. Estou lhe contando porque de agora em diante vou evitar carregar caixas e volumes pesados.
  Acho at que me lembro daquela manh em que voc chegou to feliz!
 Isso no vem ao caso, Dillon. No quero que ningum saiba quem  o pai. O beb  para dezembro, at l, trabalharei normalmente.
 Espero, sinceramente, que tudo corra bem para voc, Cory. Se precisar de ajuda, pode contar comigo. A propsito, comeamos a limpar o terreno na rua Dow.
 Otimo! Ento vamos trabalhar, Dillon.
O tempo passava rpido, e j era vero. Sue e Ralph mostraram ser timos amigos. Dillon no a deixava sequer carregar um pequeno vaso de flores. Felizmente, os enjos terminaram, e, agora, no terceiro ms de gravidez, Cory sentia-se bem-disposta. Levou o computador para casa, pois assim poderia trabalhar at tarde.
Junho  um ms lindo no hemisfrio norte. No incio do vero, as flores esto no seu esplendor, e o clima  deliciosamente agradvel.
Naquela manh, Cory saiu para visitar um novo cliente ali mesmo em Halifax. A porta se abriu, e uma senhora simptica de cabelos grisalhos e olhos expressivos a saudou.
 Meu nome  Cory Haines. Sou a dona da firma de paisagismo para qual a senhora ligou ontem.
  Entre, minha filha. Pode me chamar de Lavnia. Vamos at o quintal. Quero que d algumas sugestes para o meu futuro jardim.
 Gostaria de saber de que tipo de plantas a senhora gosta e como pensa em aproveitar esse espao  Cory disse, enquanto se dirigiam para o local.
 Quero que planeje alguma coisa bem bonita. Muitas flores e rvores. Adoro plantas e pretendo ler, tomar sol e descansar l. Hoje  meu aniversrio, e esse projeto  um presente que estou me dando.
 Parabns, sra. Lavnia.  No quintal, Cory olhou ao redor e acrescentou:  Vou tirar as medidas e assim poderei fazer alguns projetos. Se a senhora aceitar a nossa proposta, plantaremos e faremos a manuteno mensal do jardim.
 timo! Espere um momento. Acho que ouvi a campainha. Deve ser o carteiro. Estou esperando um presente de Toronto. Fique  vontade. Com licena.
Cory ficou ali, medindo o terreno. De repente, ouviu vozes vindo de dentro da casa. Era a sra. Lavnia falando com um homem. Aquela voz grave lhe soava to familiar...
No  possvel! Slade? Mas como?, pensou Cory, atnita, ao perceber que eles se aproximavam.
Slade deveria estar em Toronto, e no ali na casa da sua cliente!

                                      CAPITULO VII
  Esta  Cory Haines. Ela  paisagista. Cory, quero que conhea meu filho, Slade Reeden.
  Muito prazer, sr. Reeden  respondeu ela, sem poder acreditar no que estava acontecendo.
Com tantas pessoas na cidade, estava justamente na casa da me dele! Slade nunca mencionara que a me morava em Halifax!
  O prazer  meu, srta. Haines  ele disse, tentando disfarar a surpresa de encontr-la no quintal da sua me.
O que Cory estaria fazendo l?, pensou, intrigado.
  Da prxima vez que vier me visitar, no ir reconhecer o meu quintal, Slade. Cory tem timas idias, e tenho certeza de que vai ficar lindo.
   mesmo?  questionou, sarcstico.
  Vocs j... se conhecem?  indagou a senhora.
  No  respondeu Cory.
 Como poderamos nos conhecer?  acrescentou ele.
  Por um momento, o seu filho me lembrou uma pessoa... algum que conheci, mas... depois no o encontrei mais. S isso.
 Ah! Sei...  a sra. Lavnia murmurou.
  Bem, vou fazer os projetos com os oramentos e deix-los aqui amanh. Quando a senhora tiver uma resposta,  s me ligar. Preciso partir agora.
 Muito obrigada, Cory. Estarei esperando por voc amanh  afirmou a sra. Lavnia.
Cory despediu-se e saiu de l o mais rpido possvel. Entrou em sua caminhonete e foi para casa. Chegando l, aps entrar, trancou a porta e sentou-se na primeira poltrona que encontrou. Ficou pensando na coincidncia dos fatos, e mal podia acreditar no que havia acontecido.
A me de Slade morava em Halifax! Aquela senhora to simptica era av do beb que Cory carregava no ventre. Ele vinha a Halifax no s para trabalhar, mas tambm para ver a me. Tinha certeza de que ele nunca mencionara nada a esse respeito.
Depois de comer um sanduche e tomar um copo de leite, ela subiu para o quarto e tomou um banho demorado. Vestiu um robe leve e esforou-se para trabalhar no computador.
A todo momento, lembrava-se de Slade. Parecia que ele estava mais bonito e charmoso. Nunca pensou que o encontraria em tal circunstncia.
Estava perdida em suas lembranas, quando ouviu a campainha da porta tocar insistentemente. Como se j esperasse pela visita, desceu as escadas e abriu a porta mecanicamente.
  Entre. Sabia que voc viria.
  O que pretende com a minha me?  perguntou Slade, fechando a porta atrs de si.
 Eu no imaginava que ela era sua me.
  Como  possvel? Se voc pesquisou tanto a meu respeito, como disse, deveria saber sobre ela tambm.
 Est me chamando de mentirosa? 
 No acredito em coincidncias!
 Mas foi uma coincidncia. A sra. Lavnia ligou para a minha firma e pediu uma visita. Por que eu iria querer ser amiga da sua me?
 Apesar de a casa ser simples, ela  uma mulher de posses.
 No acredito! O pai do meu beb acha que sou fria, calculista e interesseira. Por causa de homens como voc, Slade,  que no quero me casar novamente, sabia?
Naquele momento, Cory sentiu enjo. S teve tempo de correr para o banheiro e fechar a porta.
Slade ficou atnito, sem saber o que fazer. O fato de a ter encontrado na casa de sua me foi algo inesperado. Pensava que Cory havia planejado tudo.
 Cory, voc est bem?  ele indagou, batendo na porta do banheiro.
 V embora, por favor.
Slade abriu a porta e a viu de p junto  pia, com o rosto plido, lavando a boca.
 O que houve?
 Enjo. Tive muitos no incio da gravidez, no entanto j estava melhor. No sei o que aconteceu.
V-la to desprotegida o fez lembrar-se de sua esposa. Jane nunca o deixava v-la quando estava com enjos durante a gravidez. Na verdade, ela sempre o manteve bem distante...
 V embora.
Ignorando o pedido, Slade aproximou-se de Cory e a segurou pelos ombros. Parecia to frgil... Pegou uma toalha e enxugou o rosto lvido, que o olhava com ateno. Carinhosamente, abraou-a.
 No tem sido fcil, no ?
 Pior que os enjos  a vontade de tomar um sundae duplo no meio da noite  ela respondeu.
Afastou-se dele e escovou os dentes. Quando terminou, viu os olhos azuis de Slade analisando-a pelo espelho.
 Voc realmente no sabia que aquela senhora era minha me, no ?
 No. Nem podia imaginar. Vocs nem tm o mesmo sobrenome?
 Ela se casou de novo depois que meu pai morreu. Agora, est viva do segundo marido.
 Voc deveria acreditar em mim, Slade. Se tivesse me falado sobre ela, eu jamais teria ido l.
 Quero que me desculpe. Por favor, Cory.
 Posso at mandar Dillon tratar tudo com ela. No preciso nem v-la mais.
 Voc me perdoa? Gostaria que soubesse que nada mudou para mim.
 Como assim?
  Ainda sinto aquela vontade louca de fazer amor com voc toda vez que a vejo.
Antes que Cory pudesse dizer alguma coisa, Slade tomou o rosto dela entre suas mos fortes e a beijou apaixonadamente. Suas bocas se uniram num beijo ardente, que mandava mensagens para todas as partes de seus corpos. Ento, pegou-a no colo e subiu as escadas. Dessa vez, j conhecia o caminho.
Quando abriu a porta do quarto, beijou-a de novo demoradamente e deu-se conta de que tinha nos braos os dois seres mais importantes da sua vida: Cory e o beb.
Colocou-a na cama e, de maneira sensual, desamarrou o cinto do robe dela. Aos poucos, foi desnudando o corpo que o enlouquecia. A pele alva e macia surgia revelando formas firmes e sedutoras. Deslizou a lngua pelo pescoo e pela nuca de Cory, demorando-se nas orelhas e descendo pelo colo. Mergulhou nos seios, que agora j estavam mais volumosos e irresistivelmente quentes e rijos. Com mos hbeis, Slade a enlouquecia de prazer, explorando cada parte de seu corpo com muita sabedoria.
 Cory, voc no imagina como passei todas as noites sonhando com esse momento!
  Isso  bem melhor do que sundae duplo  disse ela, brincando e abraando-o, feliz.
Apaixonados, amaram-se com ardor at adormecer, entrelaados.
Uma hora depois, acordaram com o telefone tocando.
 Sim, Dillon. O que aconteceu?
Cory falou mais um pouco ao telefone, desligou e levantou-se rapidamente. Slade a observou entrar no banheiro e ento a seguiu.
  Voc vai ter de ir agora?
  Sim  respondeu, nua, embaixo do chuveiro.  Preciso resolver alguns problemas no escritrio.
Slade deixou cair o lenol que envolvia seus quadris e entrou no chuveiro com ela.
 Cory, voc est cada vez mais linda  murmurou, encostando seu corpo nu ao dela.  Noite aps noite, acordo pensando em voc.
 Slade... Mal posso acreditar que estamos aqui, juntos. Isso tudo no deveria estar acontecendo de novo, pois no fazia parte dos nossos planos.
  Esquea os planos  continuou ele, com calma, enquanto suas mos tocavam os seios dela.
Cory sabia que tudo iria recomear, ao sentir as mos msculas percorrerem seu corpo com destino certo.
Amaram-se novamente, sob a gua do chuveiro, que escorria por seus corpos...
Em casa, com a me, Slade jantou e depois a convidou para um breve passeio na rua. A todo momento, pensava que Cory estava grvida do neto que a sra. Lavnia tanto desejava. Elas se conheciam, mas a velha senhora nem podia imaginar o que estava acontecendo.
De volta a casa, foi para a cama cedo. Deitado, ficou pensando em Cory e no que ela estaria fazendo. Novamente, lembrou-se de Jane, Apesar de o casamento haver durado oito anos, na verdade nunca tivera tanta intimidade com ela como tinha com Cory agora.
Jane fora uma tima esposa e me, porm era muito reservada, principalmente com relao a sexo. Parecia ter medo do marido ou de se entregar totalmente a ele.
Slade nunca se comportara de forma to natural e intensa com ela como fazia com Cory. Culpava-se por no ter conseguido faz-la plenamente feliz. Talvez no fosse sensvel o suficiente para entend-la e ajud-la.
Juntamente com a imagem de Jane, sempre surgia a de Rebecca, sua filha, a criana amada que enchera seu corao de alegrias. Nesse momento, apagou o abajur e adormeceu, pensando nelas.
As duas horas da manh, acordou com seu prprio grito de terror. Suando e com o corao batendo, descompassado, sentou-se na cama e acendeu a luz. Recordou-se do pesadelo horrvel que sempre o atormentava. Podia se lembrar do carro capotando vrias vezes e dos gritos de terror de Jane e Rebecca ecoando em seus ouvidos.
A mensagem daquele sonho era clara. Ainda no estava pronto para comear tudo de novo. A dor da perda de Jane e Rebecca ainda ardia no fundo de sua alma.
Algo lhe dizia que era melhor ficar longe de Cory, antes que fosse tarde demais. Ela no era para ele...
                                            CAPITULO VIII
s trs e meia da tarde, a campainha tocou. Deve ser Cory, com os projetos e os oramentos para o jardim de mame, Slade pensou. Caminhou na direo da porta e abriu-a. Para sua surpresa, ali, a sua frente, havia um homem da sua altura, loiro, de olhos azuis, que vestia uma camiseta onde se lia: "Paisagismo Haines". Era Dillon!
 Por favor, poderia entregar isso para a sra. Lavnia? So os projetos de Cory Haines. Sou seu assistente  disse ele, entregando um envelope a Slade.
 Pensei que ela viria pessoalmente.
 Geralmente ela trabalha em casa  tarde. Se houver alguma dvida, pode ligar para o escritrio. Obrigado.
Slade fechou a porta e foi at a escrivaninha da sala de estar  procura de papel e caneta. Tentou escrever alguma coisa, mas nada parecia bom. Rasgou vrias folhas. Por fim, antes que mudasse de idia, pegou a chave do carro de sua me e saiu em direo  casa de Cory.
Ao chegar, pde ver a caminhonete verde parada diante da casa. Estacionou o carro nas proximidades e, instantes depois, tocou a campainha uma vez. Ningum atendeu. No sabia se estava feliz ou desapontado. Finalmente, a porta foi aberta.
 Slade!  Cory exclamou, abraando-o pela cintura. Que bom voc ter vindo! Entre.
 Precisamos conversar.
Cory notou que ele estava diferente. Seu tom de voz era frio e distante. Afastou-se dele e acompanhou-o at a sala. Slade permaneceu de p, como se tivesse medo de mudar de idia. Tinha de manter-se firme.
Observando-o com seus lindos olhos verdes, ela percebeu que ele no trazia boas notcias.
 Voc est certa, Cory. No devemos ficar do jeito que estamos. Quero dizer... no podemos fazer amor como aconteceu ontem. Temos um trato, e acho que devemos cumpri-lo. Quando eu estiver em Halifax, no ligarei para voc. Embora ainda queira que me diga quando o beb nascer.
Por que Cory ficara triste? Era tudo o que ela queria desde o princpio. No entanto, sentia como se tivesse levado um soco no estmago.
 Concordo plenamente, Slade.
 Era o que eu tinha a dizer. Cuide-se, Cory.
 Farei isso. Fique tranquilo.
Ele precisava sair dali quanto antes, ou no conseguiria mais resistir quela mulher que tanto amava. Cory era a mulher de seus sonhos, porm ainda havia muita dor e muito sofrimento no corao de Slade que o tempo no apagara. No estava preparado para assumir um 	relacionamento srio e sabia que se a beijasse naquele momento no teria foras para se livrar de seus braos. Por isso, deu meia-voita, caminhou na direo da porta e saiu, sem olhar para trs.
Cory comeou a chorar. Slade estava indo embora para sempre. Sabia que ele tinha o direito de agir assim, afinal, esse era o trato que ela mesma propusera.
No incio de setembro, Slade foi para Halifax. Havia trs meses que no via ou falava com Cory. O acordo estava sendo obedecido. Apesar de sua me convid-lo vrias vezes para visit-la, evitou faz-lo quanto pde, dando diferentes desculpas. Agora, iria se hospedar l, ficaria alguns dias e voltaria para Toronto assim que possvel. Nem pensava em passar por perto da casa de Cory.
Chegou na residncia da sua me  tarde. A sra. Lavnia o recebeu com o carinho habitual. Foi com certo desgosto que Slade soube que sua me comprara duas entradas de um concerto sinfnico para aquela noite. Ele sabia que esse seria um evento ao qual Cory provavelmente compareceria.
 Eu devia t-lo avisado, mas quis fazer uma surpresa  disse a sra. Lavnia, feliz, com a chegada do filho.  Espero que possa ir comigo.
 Claro, mame. Ser um prazer.
Jantaram mais cedo e, s sete horas e quarenta e cinco minutos, Slade e sua me j estavam sentados na platia lotada. O concerto seria um sucesso, e muitas pessoas ainda entravam no teatro.
Enquanto sua me conversava com a senhora sentada a seu lado, os olhos azuis de Slade percorriam todo o ambiente. No encontrou nenhum conhecido, muito menos Cory. E, aos poucos, comeou a relaxar na cadeira.
De repente, num corredor no muito longe da sua fileira, viu uma cabeleira ruiva e sentiu seu corao bater, descompassado, dentro do peito. Seus longos dedos apertaram o apoio de braos. Era Cory. Um homem estava a seu lado. Pareciam se divertir. Riam, e ela tinha a mo pousada no brao do acompanhante.
Ela foi bem rpida, pensou Slade. Mesmo grvida, arrumou algum em trs meses!
Cory estava linda, usando um vestido longo azul. Os cabelos ruivos estavam soltos mas arrumados, e seu sorriso iluminava o rosto perfeito.
Slade mal reparou que naquele momento sua me lhe apresentava a senhora que estava sentada ao lado dela. Felizmente, as luzes se apagaram, e ele se sentiu mais protegido.
No intervalo, entretanto, Slade e sua me foram ao lobby para tomar um refrigerante quando, sem perceber, aproximaram-se de Cory e seu acompanhante.
 Cory, no sabia que era casada! Como est?  perguntou a sra. Lavnia, feliz era encontr-la.
 No sou casada, sra. Lavnia, mas, estou muito bem, obrigada.
 Desculpe-me, Cory. Fico feliz que esteja bem. Ah... lembra-se do meu filho Slade?
 Sim. Como vai?
 Bem, obrigado  ele respondeu simplesmente.
A boa educao impeliu Cory a apresentar seu companheiro. Ento, acrescentou:
 Este  Ralph Brownlee.
 Parabns, sr. Brownlee  disse a sra. Lavnia, estendendo-lhe a mo. Em seguida, voltou-se para Cory e indagou:  Para quando  o beb?
  Para dezembro. Espero que a senhora esteja gostando do nosso servio de jardinagem  Cory falou, mudando de assunto bruscamente.
  excelente. Dillon, seu assistente,  muito eficiente. 
Slade olhava para Cory, furioso.
 Algum problema, sr. Reeden?  ela perguntou.
 A senhorita pretende casar-se com o pai da criana ou acha isso tolice?  Slade questionou, surpreendendo a todos. 
 Bem, na verdade, ele nunca me pediu em casamento. 
 Que falta a dele! A senhorita aceitaria o pedido?
  O senhor acha que eu deveria?  Cory replicou, fitando-o nos olhos.
  Claro! A tradio da famlia est muito em moda ultimamente.
Apenas acho que no devo me preocupar com isso agora.
 A vida  cheia de surpresas, srta. Haines  continuou Slade.
 O concerto vai recomear, Cory.  melhor voltarmos para os nossos lugares  Ralph interveio, segurando-a pelo cotovelo.
  Prazer em rev-los. Divirtam-se  Cory falou, despedindo-se.
Depois que se afastaram, ela no podia acreditar no que havia acontecido. Por que Slade sempre aparecia quando menos esperava?
  Ele  o pai, no , Cory?  Ralph indagou, sentando-se a seu lado.
 Sim, mas no conte isso a ningum, por favor.
  Ele deve estar imaginando que ns dois estamos tendo um caso.
 Mal sabe ele que somos apenas amigos e que voc s est me fazendo companhia.
  Acho que Sue est certa, Cory. Voc e esse tal de Slade devem conversar e encontrar uma soluo melhor para o problema. Esto decidindo o futuro de uma criana!
Ela sabia que Ralph tinha razo. Aquela situao era ridcula. Amava Slade com toda a fora de sua alma, e o beb era tudo o que queria. Entretanto, tambm sabia que Slade no tinha inteno de casar-se com ela. Triste, assistiu ao resto do concerto.
Na manh seguinte, aps o caf, Slade ainda pensava em Cory e Ralph.
Como ela podia envolver-se com algum estando grvida do seu filho?
Estava furioso e tinha de v-la ainda naquele dia.
As duas horas da tarde, foi  casa dela. A caminhonete no estava l, mas, mesmo assim, tocou a campainha diversas vezes.
Como ningum atendia, dirigiu-se  empresa de Cory, que ficava num pequeno prdio pintado de verde com um belo jardim em volta. A caminhonete estava l.
 Bom dia, em que posso ajud-lo?  perguntou Dillon.
 Gostaria de falar com Cory.
  Ela no est no momento.
 Onde posso encontr-la?  indagou Slade, irritado.
 Se o senhor tem alguma queixa, pode falar comigo.
 No, obrigado. Quero falar com ela. S com ela.
 Acho que ainda deve estar na rua Dow. Sabe como chegar l?
 Sim.
 Voc ... Slade Reeden?     
 Exatamente.
 Foi voc quem doou os terrenos das ruas Dow e Cornell?
 Sim. Agora, com licena, preciso falar com Cory.
 Por acaso foi voc quem a engravidou?
  Sim... mas no acho que voc tenha alguma coisa a ver com isso.
 Devem ter feito um acordo. Voc deu os terrenos, e ela foi para a cama com voc  Dillon acrescentou, irnico.
 Se quer brigar, estou pronto!  Slade esbravejou, cerrando os punhos de raiva.
 Eu me lembro de voc na casa da sra. Lavnia trs meses atrs. Cory tem estado sozinha e chora muito desde aquela poca.
 J lhe ocorreu que pode ter sido ela quem quis assim?
Dillon deu uma gargalhada sarcstica, e Slade, perdendo a pacincia, pegou-o pelo colarinho e encostou-o na parede.
 Sua chefe est me deixando louco. Quero encontr-la para tentar convenc-la a agir de maneira sensata. Acredite ou no, a gravidez foi idia dela. Alis, estou pouco me importando com o que voc pensa!
Deixou Dillon boquiaberto e saiu do prdio. Pegou seu carro e partiu para a rua Dow.
Ir para a cama com Cory Haines fora a coisa mas estpida que Slade j fizera em sua vida.
                                               CAPITULO IX
Ao chegar  rua Dow, embora seu objetivo fosse encontrar Cory, Slade no pde deixar de admirar o maravilhoso jardim com bancos e rvores. No lembrava em nada o terreno baldio de antes. Algumas pessoas ainda estavam plantando flores. Ento, perguntou a um empregado se havia visto Cory.
 Ela foi embora faz dez minutos aproximadamente.
 Sabe informar para onde ela foi?
  Disse que estava indo para casa. A temperatura est muito quente para ela hoje.
Slade agradeceu e partiu para a casa de Cory novamente. Dessa vez, a caminhonete estava estacionada na entrada da garagem. Tocou a campainha, mas ningum atendeu  porta. Ser que ela o estava evitando?
Ento, ouviu um barulho vindo do quintal. Caminhou at l pela lateral da casa e viu Cory tentando levantar um saco de fertilizante do cho.
  No faa isso!  pesado demais para voc  disse Slade.
 O que est fazendo aqui?  ela perguntou, surpresa com a visita.
 Qual  o problema? Por acaso Ralph est escondido em algum lugar desta casa?
 Quer fazer uma busca?  replicou, irnica, tentando levantar o saco de fertilizante.
 Cory, eu fao isso para voc. Onde quer que eu o ponha?
 Perto daqueles vasos, por favor.  Indicou o local com um gesto de mo.
Em silncio, ela o observou carregar o saco de fertilizante sem nenhum esforo. Slade exibia um corpo atltico. Cory podia ver os msculos rijos sob a camiseta fina.
 Obrigada.
 Voc prefere discutir aqui fora ou dentro de casa?  ele indagou, irnico.
 Em lugar algum.
Slade tirou os culos escuros e fitou-a nos olhos. Acontecia sempre a mesma coisa quando estava perto dela. Uma fora estranha fazia-o mudar de idia, pois era impossvel resistir quela mulher. Seu nico desejo naquele momento era fazer amor com Cory ali mesmo, sobre a grama. Porm, esforando-se para manter o controle, questionou:
 H quanto tempo conhece Ralph?
 Faz cinco anos.
 Por que no pediu para que ele fosse o pai do beb?
 No me ocorreu essa idia. Por que est to zangado, Slade?
 Voc nem deu  luz o meu filho e j est envolvida com outro homem, Cory!
 Est com cime?
 Droga! Acho que sim.
Se ele no negou que ficara com cime dela com Ralph, pensou que tambm deveria ser honesta.
 Eu ficaria louca de raiva se o visse com outra mulher que no fosse sua me, Slade.
 Vai se casar com ele?
 No.
 Ah, claro! Esqueci que voc no quer se casar. Quando Ralph vai se mudar para c?
 Isso no ocorrer porque...
 J dormiu com ele, Cory?
 Quer parar de fazer tantas perguntas absurdas e me ouvir um pouco, Slade Reeden? Ralph  casado com a minha melhor amiga, Sue. Ontem, ela estava com enxaqueca e no pde nos acompanhar ao teatro.
Ento era por isso que os dois pareciam to  vontade no concerto. Eram amigos e conversavam alegremente. Slade respirou, aliviado.
  Est namorando algum?  Ele continuou o interrogatrio.
 Slade, sou uma mulher muito ocupada, e, com essa barriga, acha que eu estaria procurando algum?
 Tambm no tenho ningum. No quero. Penso muito em voc, Cory.
 Sinto muito pelo que aconteceu ontem. Se soubesse de tudo que estamos passando, no teria lhe feito aquela proposta h alguns meses.
  Cory, por que no vamos  praia agora? Podemos at tomar um sundae.
  Ah! Voc se lembra dessas bobagens?
  Eu me lembro de tudo que voc diz ou faz.
 Adoraria ir  praia.
Slade foi at  casa de sua me e colocou uma sunga sob a roupa que usava. Pegou uma toalha e voltou para apanhar Cory, que estava pronta, esperando-o.
Foram de carro at uma praia chamada Baa de Santa Margarida. A areia estava quente. Caminharam um pouco e sentaram-se diante do mar. A brisa era fresca, e naquele fim da tarde o sol brilhava ainda forte.
 Vamos na gua, Cory?
 Mai de grvida no  nem um pouco sexy  respondeu ela, que usava um vestido de ala sobre a roupa de banho.
 Voc  absolutamente linda para mim.
 Mas estou gorda!
 Est grvida  disse Slade, desabotoando seu vestido e ajudando-a a tir-lo.
Olhou-a com satisfao. A gravidez fazia muito bem a Cory. Os seios estavam um pouco maiores e a barriga j bem pronunciada.
Por um momento, ficou emocionado. Aquela mulher e aquele filho eram seus! Inclinou-se para ela e a beijou sem saber como poderia expressar todo o seu sentimento. As mos de Cory tocaram o peito musculoso, e ela o abraou com fora. No fundo do seu corao, Slade sentia quanto a amava.
Em seguida, correram para o mar. A gua estava fria. Brincaram com as ondas como dois adolescentes. De repente, seus olhos se encontraram, ele a segurou pelos braos e beijou-a com paixo. Ento, voltaram para a areia, e Slade tocou a barriga dela.
 Cory... isso foi um chute?  indagou, espantado. 
 Sim, de seu filho, Slade.
 Filho?
  Fiz uma ultra-sonografia h alguns dias e fiquei sabendo que  um menino.
Slade manteve a mo na barriga de Cory, sentindo os movimentos do beb, e, emocionado, experimentou antigas emoes que guardava na memria. Uma lgrima rolou por seu rosto.
  Obrigado por me contar, Cory. Est feliz por ser um menino?
 Uma criana sadia  tudo o que quero. 
 Voc devia se casar.
 Jurei que depois de Rick no me casaria novamente. Foi duro passar pelo que passei.
 Por acaso se lembra dele quando me v?
 Claro que no, do contrrio eu nem olharia para voc!
 Bem, isso j  um comeo. Quero lev-la para jantar hoje. Prometo que falaremos de tudo, menos de casamento e gravidez.
 Tem de ser cedo. Preciso trabalhar em casa hoje  noite.
 Estar em casa s oito e meia no mximo.
 Tudo bem.
Voltaram para a casa de Cory. Slade subiu para tomar um banho e passou pelo quarto dela. Sorriu, sem querer, pensando que fatalmente terminariam a noite ali, desfrutando da louca paixo de sempre.
Depois do banho, saiu do quarto e, quando ia descer as escadas, viu a porta do outro quarto entreaberta. Seu rosto se endureceu. Aquele seria o quarto do beb.
Ao entrar, sentiu o cheiro de tinta fresca. Um amarelinho bem claro cobria as paredes com uma faixa de papel com personagens da Disney, contornando todo o aposento. As cortinas combinavam com o papel de parede. Sentiu um aperto no corao quando viu o bero. Era exatamente igual ao de Rebecca quando nascera.
Em pouco mais de trs meses, seu filho nasceria. No havia nada que pudesse fazer. Ento, estaria novamente vulnervel para sofrer como sofrera com a perda de Rebecca. Devia sair dali, voltar para Toronto. Nada de jantar com Cory.
Desceu rapidamente e encontrou-a de banho tomado, assistindo ao noticirio das seis horas na televiso. Penteava os longos cabelos ruivos e, com o rosto franzido, tinha os olhos fixos na tela.
Um acidente grave envolvendo trs carros na estrada Transcanad era a manchete do telejornal. A reportagem mostrava claramente imagens dos carros, policiais e ambulncias.
A respirao de Slade quase parou. Seu rosto ficou branco como papel. As recordaes voltaram  sua mente.
Naquele maldito dia de fevereiro, havia pouco mais de dois anos, Jane dirigia o carro dele com Rebecea no banco de trs. Se no estivesse to ocupado, Slade estaria ao volante em vez da esposa. Por ser melhor motorista, talvez tivesse conseguido desviar do imenso caminho que, desgovernado, fora na direo delas.
 Slade, o que h? Fale comigo.
Com esforo, ele voltou ao momento presente e viu que a mulher que chamava seu nome e o agarrava pelo brao era Cory, e no Jane.
 O que aconteceu? Por favor, conte-me.
Ela desligou a televiso, e ambos sentaram-se no sof.
 Minha mulher e minha filhinha de trs anos morreram num acidente de automvel. Isso foi h dois anos e meio. Um caminho sem freios foi na direo do carro que Jane dirigia. Eu estava no escritrio  Slade explicou, transfigurado.
  Sinto muito.  por isso que... no quer se casar de novo?
Ele apenas concordou com um gesto de cabea.
 E por que aceitou a idia da gravidez?
 Como voc tambm no queria compromisso, o nosso filho estaria bem, sem que eu me envolvesse com a vida dele. Sou um tolo e imaturo emocionalmente.
 Slade, voc  humano como todo mundo. No  imaturo, e sim um homem sensvel e apaixonado. Sinto-me segura e livre para ser eu mesma quando nos amamos. S voc me faz rir e chorar de emoo.
  melhor irmos, ou vai ficar tarde para voc trabalhar.
 Esquea o trabalho!
 Cory, quer se casar comigo?
 No posso, Slade. Voc sabe que no posso.
 No sei por que estamos falando sobre isso. Vamos jantar. No tocarei mais nesse assunto.
s oito e vinte, Slade acompanhou Cory de volta para casa. Ela destrancou a porta e fitou-o nos olhos, antes de perguntar:
 Gostaria de entrar?
 No, obrigado. Voc precisa trabalhar. Devo ir para Toronto amanh. Cuide-se, Cory.
 Voc tambm, Slade.
  Adeus  disse ele, virando-se e caminhando em direo ao carro.
Partiu sem fazer nenhuma tentativa de beij-la.
Durante o jantar, Slade fora educado, mas se mostrara frio e distante. Depois do episdio da cena do acidente na televiso, ele se isolara em algum lugar do passado que ela no conhecia. Slade era to inconstante! E ela tambm...
Sentada no sof da sala, sozinha, tentava entender seus prprios sentimentos. No aceitara se casar com ele. Porm, daria tudo para fazer amor com Slade naquele momento. Queria que ele fosse para Toronto, no entanto parte dela desejava estar em seus braos.
Tarde da noite, quando estava s em seu quarto, deitada na cama, Cory pensou no modo como Slade se despedira dela. Um simples adeus era como uma faca que cortava toda a intimidade, o amor e a alegria que tiveram juntos.
Ser que aquilo significava um fim? E se ela nunca mais o visse? O que sentiria?
                                             CAPITULO X
Slade voltou a Toronto, sentindo uma paz inferior havia muito tempo esquecida. Tomou a deciso de no se casar com Cory, apesar de a ter pedido em casamento. Mais que isso, resolveu que ficaria longe dela para sempre. Esteve muito ocupado com novos projetos e viagens. No ntimo, congratulava-se por estar afastado de toda a confuso que Cory Haines representava.
Certo dia, duas semanas depois de ter sado de Halifax, Slade foi jogar tnis com Bruno, um amigo que muito o ajudou depois do acidente de Jane e Rebecca. Ao final da partida, foram  lanchonete do clube para tomar suco e conversar um pouco.
  Voc est timo, Slade! J sei, est saindo com alguma mulher maravilhosa.
  Errou. Acabei um relacionamento.
 O que aconteceu? Ela chegou muito perto?  perguntou Bruno, que o conhecia bem.
 No estou pronto para assumir compromissos. 
 E quando acha que estar pronto, Slade?
 Como vou saber?  replicou, irritado.  Vim aqui para relaxar. E voc?
  Como era a mulher com quem estava envolvido?  insistiu Bruno.
 Possua cabelos cor de cobre, olhos da cor do mar do Caribe e corpo escultural.
 Nada mal, hein?
 Uma mulher sensacional!  Slade exclamou.
 Qual o problema, ento? J sei, ela queria se casar!
 De jeito algum. Pelo contrrio.
 Bebia muito... fumava?
 Nada disso, Bruno.
 Ento, por que desmancharam? 
 No  da sua conta.
 Qual o nome dela e onde mora?
 Por qu? Vai se separar da sua mulher?
  De forma alguma. Eu e Serena vamos acabar os nossos dias juntos.
 O nome dela  Cory Haines, mora em Halifax e est grvida de seis meses de um menino  informou Slade.
 Voc  o pai?
 Exatamente. Ela quer ser me solteira. Cory  linda, e quase fiquei louco. At que, na semana passada, resolvi me afastar dela e tratar da minha vida.
 No pode fazer isso, Slade.  imoral.
 Mas Cory no quer se casar comigo!
 Talvez eu deva ir a Halifax e conversar um pouco com essa moa.
 Se fizer isso, no falo mais com voc!
  Bem... O tempo est passando. Voc s tem mais trs meses para faz-la mudar de idia. Cory... est envolvida com algum?
 No. Ela  divorciada. Embora no fale muito do ex-marido, acho que se eu o visse daria-lhe uma surra.
 Voc vai reconhecer a criana?
 No sei. Fizemos um acordo na primavera.
  Acho que no deve se afastar dela nem do beb. Iria se arrepender para o resto da vida, Slade.
 Tenho de pensar nisso tudo, Bruno.
  No precisa pensar, e sim agir, Slade. Antes que seja tarde demais.
A vida continuou... E tudo o que Bruno dissera no dia em que jogaram tnis fez Slade perceber quanto a sua vida era vazia. Seu trabalho era interessante e cheio de desafios, mas ningum em Toronto discutia com ele como Cory nem fazia-o rir ou tocava seu corao como ela.
Sozinho no seu apartamento numa noite de outubro, percebeu que tinha um lar vazio. Era uma verdade muito dolorida.
O que Cory estaria fazendo naquele momento? Ser que sentia saudade dele? Talvez estivesse levando a vida normalmente e nem se lembrasse de sua existncia. S havia lugar para o beb em sua vida, no para Slade Reeden.
Podia pegar o telefone, ao alcance da mo, e ligar para Cory. No o fez. Talvez se escrevesse uma carta... Nem pensar!
Passou a visitar Bruno e Serena nos fins de semana. Eles tinham dois filhos. A menor, com dois anos de idade, lembrava-lhe muito sua filha Rebecca. Era com ansiedade que Slade aguardava a chegada dos domingos para visitar as crianas. Divertia-se e tambm curava suas antigas feridas. De alguma forma, sentia-se mais prximo de Rebecca.
Talvez tudo tenha comeado naquele dia na casa de Cory, quando assistiu s cenas de um acidente na televiso e contou-lhe sobre o que acontecera com Jane e a filha. Slade estava passando por uma fase de reconhecer a dor, lidar com ela e seguir em frente.
Depois de algumas tentativas, chegou  concluso de que no tinha interesse em namorar ningum a no ser Cory.
Numa manh de novembro, ele tomou o metr para ir ao trabalho. Havia um casal apaixonado sentado a sua frente. A jovem estava grvida, e o rapaz, cheio de amores, beijava-a e dava-lhe toda a ateno.
Slade e o casal desceram na mesma estao. Por mais alguns momentos, pde observar o casal que aos poucos desapareceu em meio  multido. Aquele marido estava fazendo o que ele, Slade, no fazia. Dava amor, carinho e apoio  mulher amada. Participava da gravidez, oferecendo segurana e proteo.
Sentiu-se triste ao pensar que estava longe de Cory.
Ele em Toronto, e ela em Halifax. Como poderia ajud-la no dia-a-dia? Subitamente, deu-se conta de que queria estar com ela, abra-la e beij-la. Slade a amava. No havia mais como esconder esse sentimento. Na verdade, apaixonara-se por Cory desde o primeiro momento em que a vira. Ele queria o beb, mas antes de tudo amava Cory.
Sozinho, no meio daquela multido apressada, Slade percebeu que conseguira se livrar da dor que o atormentara por muito tempo. Descobriu que era capaz de amar de novo. Agora sabia o que queria e tinha coragem para lutar por seu amor. Cory era tudo em sua vida. Precisa v-la o mais rpido possvel.
Na semana seguinte, Slade chegou a Halifax. O primeiro impulso foi ir  casa dela imediatamente, mas, seguindo os conselhos de seu amigo Bruno, Slade resolveu agir com calma para no a assustar. Afinal, se ela no queria se casar, ele deveria se aproximar aos poucos, com ou sem flores, e instalar-se na cidade pelas prximas semanas. No deveria pression-la, e sim deix-la se acostumar com a idia de que ele a amava.
Alugou um apartamento e preparou-se para trabalhar em Halifax, como fazia em Toronto. Sentia-se muito feliz. Sabia o que queria e estava apaixonado. Sonhava acordado com Cory na igreja, casando-se e carregando o beb. No esperava que ela casse em seus braos assim que o visse, porm acreditava que ela acabaria aceitando-o.
Logo que chegou ao apartamento, desfez as malas e comeu uma refeio leve. Incapaz de controlar a ansiedade, pegou o telefone e ligou para Cory. Depois de alguns segundos, escutou a secretria eletrnica do outro lado da linha. Desligou imediatamente, afinal, no seria muito estratgico anunciar sua chegada por uma mquina. Ligaria novamente no dia seguinte.
No tinha idia, no entanto, de como explicaria para sua me a sbita mudana temporria para um apartamento em Halifax. Bem, resolveria isso mais tarde.
Decidiu, ento, olhar a programao de cinema no jornal. Em seguida, vestiu sua jaqueta de couro e saiu.
L fora, as rvores j estavam sem folhas, e o vento frio soprava, inclemente.
Enquanto tentava aquecer as mos frias nos bolsos da jaqueta, sentia-se feliz s de pensar que estava mais perto de Cory. Sabia que tomara a deciso certa ao se deslocar para Halifax para ficar com ela. Finalmente, ele agira com bom senso.
Chegando ao cinema, comprou o ingresso e depois entrou na fila para comprar pipoca. Aps alguns instantes, as portas da sala de projeo se abriram para as pessoas sarem. Slade gostava de olhar nos rostos delas para descobrir o que haviam achado do filme.
Ento, quando ele menos esperava, Cory surgiu. Ao seu lado, havia uma mulher de cabelos escuros. Cory no viu Slade, que saiu da fila e correu no meio da multido em direo a elas.
 Cory?  gritou ele, ainda alguns metros atrs. Ela conhecia aquela voz e virou-se, surpresa.
 Ol, Slade.
Sorrindo e olhando-a rapidamente da cabea aos ps, ele a segurou pelos ombros e beijou-a levemente nos lbios.
 Voc est maravilhosa! Como se sente?
  Bem, obrigada. Esta  minha melhor amiga, Sue Brownlee.
 Muito prazer. Slade Reeden  ele se apresentou, estendendo-lhe a mo.
Com um olhar especulativo, Sue retribuiu ao cumprimento.
 Ficarei morando em Halifax por algum tempo, num apartamento perto daqui. Boston Inn. Conhece, Cory?  
 Morando?  ela indagou, com o rosto plido.
 Sim, cheguei hoje  tarde. Gostaria de pagar um caf para vocs. Vi uma pequena doceria a alguns metros daqui.
  Quanto tempo pretende ficar em Halifax?  indagou Sue.
 At depois do Ano-novo.
 Certo...  Sue disse calmamente.
Cory estava quase para explodir, quando ouviu a amiga aceitar o convite para o caf.
 No estou com pressa! Podemos ir  doceria. Que tal, Cory?
Considerando o silncio que se seguiu como uma resposta afirmativa, Slade guiou-a pelo cotovelo at a doceria.
O casaco pesado de Cory j no abotoava mais na frente e, aberto, deixava ver seu vestido vermelho, que combinava com a fita que amarrava seus cabelos. Sentia-se gorda demais. Alm disso, estava furiosa com Sue por ter aceito o convite para tomar caf com Slade. Quem ele pensava que era para aparecer em Halifax quando quisesse? Quase a matara de tristeza meses atrs e agora surgia como se nada tivesse acontecido. Assim que pudesse, conversaria com ele e, definitivamente, encerraria esse relacionamento inconstante. Desejava estar tendo um pesadelo, mas l estava Cory, andando entre os dois como se fosse uma prisioneira escoltada.
A doceria era bem decorada e aconchegante. Sentaram-se numa mesa para trs pessoas no canto do salo. O menu oferecia deliciosas tortas, sucos e chs. A garonete aproximou-se para anotar os pedidos.
  Um ch de camomila, por favor  pediu Cory, mal-humorada.
 Quer algum doce?  perguntou Slade.
 Meu mdico s me permite engordar mais um quilo e meio at o fim da gestao.
Assim que os pedidos foram feitos, a garonete afastou-se. Slade fitava Cory, que parecia querer sumir dali. Sue desculpou-se e foi ao toalete, deixando os dois a ss.
  Liguei para voc assim que cheguei. Gostaria de jantar comigo amanh  noite?
 Voc est... diferente  Cory murmurou, mudando de assunto.
 Sinto-me diferente. E voc, como est?
 O nosso trato  que viveria em Toronto.
 No posso mais, Cory.
 O que est fazendo aqui?
 Estou convidando-a para jantar comigo amanh  noite!
 No  disso que estou falando.
 Cory, perguntei h pouco como voc est.
  Cansada, saudvel... No posso mais pintar as unhas dos meus ps porque no as alcano  ela respondeu, sem mencionar a solido e o medo.  Est quebrando o trato, Slade.
  Sim, estou. Acho que  para o nosso bem.
 A reposta para o convite do jantar  no.
 Est com medo, Cory?
 No, apenas pensando nos meus prprios interesses.
  O beb  nosso interesse. Seu e meu.
Sue estava de volta e sentou-se  mesa. A garonete aproximou-se com os pedidos.
 Tem ido ao cinema com frequncia, Slade?  perguntou Sue, tentando quebrar o silncio.
  Posso lhe falar de todos os filmes que tenho visto nos ltimos oito meses, mas antes quero fazer-lhe uma pergunta. Voc sabia que sou o pai do beb de Cory?
  Sim, meu marido Ralph me contou sobre voc em setembro  respondeu Sue.
 Por acaso, vai anunciar a paternidade do meu beb para todos na cidade, Slade Reeden?  Cory interveio.
 No, s a quem interessa.
 Sua me, por exemplo?  indagou Cory.
 Ainda no soube como faz-lo.
  Ento, sugiro que pense nisso com muito carinho.
 Cory fez uma breve pausa antes de acrescentar, mudando radicalmente de assunto:  Como est o tempo em Toronto?
  No vim at aqui para falar sobre o tempo  disse Slade.
 Bem, vejo que voc no  indiferente a Slade, Cory  Sue interveio delicadamente.  Nem estou surpresa, afinal, voc no  calculista nem tem sangue-frio.
 Deixo essas qualidades para ele!
 Que droga, Cory!  exclamou Slade.
 Voc vai ao cinema, me encontra e tem a petulncia de pensar em consertar tudo o que deixou para trs duas vezes. Por favor, Slade. Poupe-me de tudo isso.
 Jante comigo amanh, e vou lhe contar o que se passou comigo durante esse tempo. Todos os detalhes  ele falou.
 Claro, depois que j planejou tudo  Cory replicou. De repente, Sue deu uma risada.
 Vocs dois parecem eu e Ralph quando brigamos. Sem fazer nenhum comentrio, Cory levantou-se e foi ao toalete. Slade observou-a se fastar com amor e ternura no olhar.
 Est apaixonado por ela, no?  questionou Sue.
 Sim... Levei muito tempo para aceitar isso  confessou Slade com a voz embargada.  Quero me casar com ela, Sue. Por isso, estou aqui.
 Fico to feliz em saber! Desde o incio, temos dito para ela que  muito melhor criar um filho com os pais juntos. Claro, se ambos se amarem.
 Desejo me casar com ela porque a amo, mas tambm quero ser pai e parte da famlia.
 Acredito que as suas chances no so muito boas agora. Ela  contra o casamento, pois passou por uma experincia horrvel. Porm, voc parece no desistir de seus objetivos com facilidade, no , Slade?
 Como era Rick?
 Ela quase no fala sobre ele. Nem comigo, sua melhor amiga.
  A primeira vez que fizemos amor, senti que ela tinha muitas mgoas desse homem  falou Slade.
  Se houver alguma coisa que Ralph e eu possamos fazer para ajud-los, conte conosco. Vou convidar vocs dois para jantar em casa no fim de semana. Que tal?  perguntou Sue, tentando encoraj-lo.
 Talvez ela nem v, se souber que irei, Sue.
 Ento, no contarei a ela que o convidei.
Cory voltou  mesa e imediatamente se despediu dele. Instantes depois, Slade observava as duas partirem. Tudo o que ele imaginara estava longe de acontecer. Cory no estava interessada em se casar com ele. Na verdade, nunca estivera. Voltou para o apartamento com o corao apertado de dor.

                                        CAPITULO XI
Na manh seguinte, Slade foi visitar sua me. Ainda no tinha a menor idia de como lhe contaria sobre Cory e o beb. Com certeza, no iria mentir.
As estacionar o carro alugado diante da casa da sra. Lavnia, percebeu que o jardim estava cuidado e harmonioso.
A me o recebeu com amor e alegria. Sentaram-se nacozinha, e, enquanto servia duas xcaras de caf, a sra. Lavnia analisava a expresso do rosto de Slade.
 Que bom v-lo, meu filho! Voltou a Halifax para... se casar com aquela moa maravilhosa que cuida do meu jardim e espera um neto meu?
 Como voc sabia?  perguntou, incrdulo.
 Filho, posso estar velha, mas no sou boba. Suspeitei de algo quando vocs dois se encontraram aqui no quintal de casa. Finalmente, na noite do concerto, tive certeza. Confesso que no estou muito feliz com a maneira como voc vem agindo.
 Nem eu, me.
Abatido, Slade contou-lhe a histria do acordo com Cory e que se distanciou dela por ainda sofrer com a perda de Jane e Rebecca.
 Agora, sinto que consegui aceitar o fato e quero me casar com Cory.
 Ficarei muito feliz se ela for minha nora.
 Vamos ter um menino, e nascer no fim de dezembro. No entanto, Cory no quer se casar comigo nem com ningum. Acredito que se decepcionou muito com o primeiro casamento.
 Nas duas oportunidades que tive de v-los juntos, pude notar que ela no parecia indiferente a voc  disse a sra. Lavnia.
 O oposto da indiferena, me, no  necessariamente o amor.
 Tenho certeza de que tudo dar certo, Slade. Seja paciente e no desista.
Sua me estava certa. Precisava ser paciente e determinado. Afinal, no saberia mais viver sem Cory.
Depois de almoar com a me, Slade foi  casa de Cory. Ela no estava. Ento, foi at o escritrio e encontrou Dillon atrs do balco.
 Cory no est, e no vou dizer onde pode encontr-la  falou o assistente, com m vontade.
 Deixe-me dizer uma coisa, Dillon. Amo Cory e quero me casar com ela. Sei que levei muito tempo para entender isso, mas no posso fazer nada. Infelizmente, ela se recusa em me aceitar. Quer ter o beb sozinha. Pelo amor de Deus, ela nem quer jantar comigo!
 Est apaixonado por Cory, e ela no quer se casar com voc?
 Pergunte a ela tambm de quem foi a idia de ficar grvida.
 Farei isso  afirmou Dillon.
 Agora, vai me revelar onde Cory est?
 Em uma reunio, na prefeitura. Deve acabar a qualquer momento e em seguida ir para casa.
 Obrigado, Dillon. Saberia me dizer por que sua chefe no pode ouvir falar em casamento?
 Nem imagino. Quando comecei a trabalhar com ela, tentei namor-la, porm Cory me repeliu logo. Somos apenas amigos.
 Vou  casa dela. Obrigado mais uma vez, Dillon. No caminho, passou por uma floricultura e comprou duas dzias de rosas vermelhas.
Ao chegar l, viu a caminhonete de Cory estacionada na entrada da garagem. Tocou a campainha, e a porta foi aberta rapidamente. Ela ainda estava com a bolsa na mo.
 Acabei de chegar e estou cansada. O que deseja?
 Quero lhe dar estas rosas  respondeu Slade, estendendo-lhe o ramalhete.
 A que devo tanta gentileza?  ela replicou, pegando as flores e sentindo seu perfume.
 No seja irnica, Cory. Achei que gostaria.
  Obrigada. Preciso descansar agora. Estou exausta  disse, encostada no batente da porta.
 Li um artigo sobre gravidez no vo para c. Massagem nas costas  timo para aliviar o cansao. Posso lhe preparar tambm um pequeno lanche. Que tal?
 Com direito a sundae duplo?  brincou. No fundo, ela estava feliz por v-lo.
 V vestir algo mais confortvel e me chame assim que estiver pronta  Slade falou, rindo e apanhando o ramalhete das mos dela.
Em seguida, ele entrou e fechou a porta atrs de si.
Cory subiu, e Slade foi para a cozinha,  procura de um vaso para as rosas. Ento, descobriu que uma das dobradias do armrio estava solta. Foi ao poro, pegou ferramentas e ps-se a consertar a pea.
Enquanto isso, Cory tomou banho e vestiu um robe cor de vinho. Quando chegou  cozinha, ele terminava de consertar a dobradia.
 A torneira do banheiro est pingando, e a televiso est quebrada. Poderia dar uma olhada?  Cory indagou, irnica.
 Claro. Depois da massagem.
 Por acaso est querendo se mostrar til, sr. Slade Reeden?
 No  m idia  respondeu, aproximando-se dela e beijando-a no rosto.  Por que no subimos para eu fazer a massagem?
 No quero que faa amor comigo. Slade.
 No estou aqui para isso, Cory.
 Preciso aprender a dizer no. Esse  o meu problema  ela desabafou, enquanto subiam para o quarto.
Momentos depois, Cory tirava o robe e deitava-se de bruos na cama. Usava uma camiseta de malha fina, que cobria apenas a calcinha. Ento, ele comeou a massagear-lhe as costas, podia sentir os msculos tensos dela. Com movimentos suaves e precisos, foi fazendo-a relaxar. Em poucos minutos, Cory adormeceu. Slade tirou a roupa, ficando apenas de cueca, e deitou-se ao lado dela, abraando-a. Puxou a coberta sobre ambos e ficou olhando-a, feliz. Com a mo na barriga de Cory, pensou quanto amava aquela mulher e seu filho.
Duas horas mais tarde, ela acordou, sentindo-se aquecida, relaxada e feliz. Sabia que o motivo estava bem ali, a seu lado, abraado a ela.
  Slade, estou morrendo de fome  murmurou.
Sorrindo, ele abriu os olhos e beijou-a apaixonadamente. Era a hora certa de dizer-lhe quanto a amava, mas no queria assust-la. Ento, apenas acariciou seus cabelos ruivos e apertou-a contra si.
 Quer que eu pea comida chinesa?
 Adoraria  respondeu ela. Comeram frango-xadrez e arroz frito. Slade foi embora cedo.
Na manh seguinte, ele voltou  casa de Cory, consertou a torneira do banheiro e levou a televiso para uma loja de assistncia tcnica. No sbado  noite, jantaram na casa de Sue e Ralph. No domingo de manh, Slade foi  casa de Cory e naquele momento estava ajudando-a no jardim.
 Vamos sair hoje  noite. Ponha o seu melhor vestido, iremos jantar no novo restaurante de frutos do mar que abriu na cidade. Todo mundo diz que  timo.
 Se no se importa, prefiro comer em casa, Slade.
 Eu me importo, sim.
 Sinto-me enorme no meu melhor vestido.
 Pare com isso, Cory. Na verdade, voc no quer ser vista comigo, no ?
 Conheo muitas pessoas na cidade. Por que devemos alardear que voc  o pai do meu filho?
 E por que no?
 Porque no quero!  exclamou ela.
 No vou embora de Halifax, Cory.
  O trato ainda est de p para mim.
 Ento, estamos num impasse  disse Slade, com voz suave, porm decidida.  Agora sei por que fiz o acordo com voc. No fundo, optei pela vida e pela felicidade.
 Com assim?
 Eu vivia como um autmato, dominado pela dor da perda. Ento, voc apareceu com a sua louca idia, e eu concordei. Meu subconsciente sabia o que estava fazendo, embora minha conscincia no soubesse. Sempre quis o beb. Desde o incio.
Nada do que ele dizia fazia Cory sentir-se melhor. Ao contrrio, suas palavras pareciam sufoc-la, impedindo-a de respirar e envolvendo-a numa nvoa de conflitos.
 No quero mais falar sobre esse assunto. Para mim, o trato continua valendo  gritou, furiosa.
 No  possvel!
  Odeio discutir, Slade. Vou entrar.
Cory virou-se e, irritada, dirigiu-se para dentro de casa. No caminho, entretanto, tropeou numa pedra e caiu, apoiando-se nos joelhos. Slade correu para ajud-la.
  Ser que machuquei o beb, Slade?  indagou, angustiada.
 Fique calma. Vou lev-la ao hospital. Rapidamente, pegou-a no colo e conduziu-a ao carro, colocando-a no banco do passageiro. O rosto de Cory estava plido e os joelhos, machucados. Com destreza, Slade chegou ao hospital em poucos minutos.
Ela foi levada  sala de emergncia e seu mdico, chamado em seguida. Slade ficou a seu lado, segurando-lhe a mo fria. Ansiedade e remorso atormentavam o corao dele. Se no tivesse falado do jantar e do beb, nada disso teria acontecido!
 No foi culpa sua. Slade  sussurrou Cory, como se pudesse ler seus pensamentos.  Minha me sempre me disse que eu devia controlar meu temperamento.
  Eu a deixei nervosa e provoquei essa situao  culpava-se ele.
 No importa o que aconteceu. No foi por sua culpa, Slade. Acredite-me.
Quando o mdico chegou, Cory apresentou Slade como um amigo e, rapidamente, contou o que acontecera.
 Talvez deva esperar l fora, sr. Reeden  props o mdico.
  Ele pode ficar... se quiser  disse Cory.
 Eu fico  decidiu Slade, feliz por ela ter permitido que ele participasse daquele momento.
O exame foi feito cuidadosamente, e o mdico no demonstrou preocupao.
 Voc e o beb esto bem, Cory. Quero apenas que v para casa e faa repouso por trs dias. No fique sozinha.
 Ficarei com ela, doutor  interveio Slade.
 timo  respondeu o mdico. Em seguida, olhando para Cory, acrescentou:  Vou chamar a enfermeira para fazer curativos em seus joelhos e depois poder ir embora. No faa extravagncias.
Aps a sada do mdico, Cory ainda segurava a mo de Slade. Pensou no fato de que ele ficaria com ela por alguns dias. Havia muito tempo, no vivia com ningum. Desde Rick!
Meia hora mais tarde, ao chegar em casa, Slade ajudou-a a subir a escada e colocou-a na cama. Tirou-lhe a roupa e a ajudou a desabotoar o suti. Com timidez, Cory cruzou os braos sobre os seios.
 Aqui est a sua camisola  disse Salde, tambm encabulado.
Os dois estavam desconcertados, como se nunca tivessem sido ntimos. Gentilmente, ele dobrou as roupas dela e, fitando-a nos olhos, acariciou a barriga proeminente.
 Cory, quero que saiba que no vim a Halifax para controlar ou complicar a sua vida. Vim porque... eu te amo.
 Ama?
 Sinto muito, pois levei muito tempo para perceber que no posso viver sem voc. No quero que diga nada. Apenas pense no que acabei de lhe contar.
 Estou com frio  ela murmurou, tremendo.
 H mais uma coisa que eu gostaria de lhe dizer. A cada dia que passa, voc fica mais linda!
 Obrigada, Slade  Cory agradeceu, com um sorriso nos lbios, feliz.  Voc  to diferente de Rick. Eu me sentia um fracasso. Ele dizia que eu era pssima esposa e amante. Voc no faz isso, Slade.
 Acha que no sei que foi infeliz com ele?  perguntou Slade.
 Voc percebeu isso?
 Claro. No queria que eu ficasse perto de voc. Com o tempo, entendi que no era eu, mas sim a lembrana dele.
 Fazer amor com Rick era algo que me repugnava. Achava que tinha obrigao porque ramos casados.
 Ele era violento, Cory?
 Muito. Casou-se comigo por causa do meu dinheiro. Levei muito tempo para perceber quais eram as verdadeiras intenes dele. Estava apaixonada e achava que Rick era perfeito. Sei que hoje  um escultor famoso, mas quando o conheci no tinha um tosto. Na poca, ainda era aluno do curso de artes. Eu tinha o dinheiro do seguro do meu pai que falecera e uma tia muito rica que me mandava uma boa quantia por ms. Ele dizia que me amava, porm era tudo mentira. Descobri que me traa com outras mulheres. Ento, pedi que sasse da minha casa. Como no fui atendida, peguei minhas coisas e sumi de l.
 Nunca mais o viu?
 Passado algum tempo, Rick ainda tentou falar comigo, indo ao meu escritrio. Chegou a me ameaar! Certa vez, agrediu-me na sada do meu trabalho. Mais tarde, fiquei sabendo que se casou com uma senhora idosa porm rica de Boston.
  Agora est livre dele, Cory. Todos ns cometemos erros principalmente quando somos jovens.  Aps uma breve pausa, Slade acrescentou:  Tente dormir um pouco.
 Nunca falei sobre Rick com ningum...
 Agora descanse, Cory. Estarei aqui quando acordar.

                                      CAPITULO XII
Os trs dias de repouso pareceram uma eternidade para Cory. No gostava de ficar parada e dependente de Slade.
Ele, ao contrrio, parecia estar feliz. At adiou alguns trabalhos para poder ajud-la. Preparou comidas saborosas e encontrou tempo para fazer vrios consertos na casa.
Cory podia ouvi-lo assobiar, feliz, enquanto desempenhava suas tarefas, deixando sua marca em todos os lugares. Um pouco de gesso numa rachadura da sala de jantar, uma nova maaneta na porta do banheiro, um acerto nas dobradias do armrio da lavanderia... No tinha do que reclamar.
No quarto dia, ela j se sentia bem melhor, ea sensao de estar aprisionada a incomodava bastante. Queria voltar a ter o comando de sua vida.
Slade no era igual a Rick. Isso ela sabia. Durante todos aqueles dias, ele dormira no quarto de hspedes, mas estivera sempre por perto, observando-a com seus belos olhos azuis. Ele dizia que a amava, porm Cory no iria mudar sua deciso em relao ao acordo. Slade deveria ir embora naquele dia mesmo. J era hora de ela voltar a sua rotina.
Ento, decidida, tomou banho, vestiu-se e foi  cozinha. Os raios de sol que entravam pela janela inundavam o cmodo. Contra a luz, viu um vulto de homem. Parecia Rick!
 O que foi, Cory? Voc est bem?
 Por um minuto, pensei que voc fosse Rick.
 No sou e ficaria feliz se no me confundisse com aquele crpula.
  Gostaria que fosse embora hoje. Obrigada por ter ficado comigo, mas prefiro ficar s.
 O que deseja que eu faa, Cory? Quer que eu volte para Toronto e esquea que nos conhecemos?  indagou Slade, louco de raiva.
 Seria timo  respondeu ela.
 Pelo amor de Deus, Cory! Quando vai amadurecer?
 Claro. Quando no ajo como voc quer, sou imatura. Temos um acordo, e voc, Slade, no  adulto o suficiente para cumprir a sua parte.
 A vida no  assim definitiva. Ainda no aprendeu isso? As coisas mudam. Em um ms, nosso filho vai nascer. Quero me casar com voc e que ele tenha um pai por perto.
 J disse, Slade, no vou me casar!
  hora de voc entender as implicaes da sua atitude. So trs pessoas envolvidas nisso tudo. Desejo viver com voc, Cory. Para o resto da minha vida.
 No, Slade!
 Eu te amo. Quero voc e o beb.
 Rick queria o meu dinheiro. Voc quer o meu beb.
 Se eu ficar, voc me comparar com Rick a todo instante. Se eu partir, a perderei. No sei que deciso tomar.
 No posso fazer nada, Slade. Eu no te amo. 
Cory o queria fora de sua casa e de sua vida. Estava confusa, no conseguia distinguir a figura de Slade da de Rick!
 Escute bem, Cory. Enquanto no se libertar da lembrana de Rick para sempre, no ser capaz de amar ningum. Por que no o procura?
 Por que eu faria isso? Aceite o fato de que eu no te amo.
 E o nosso filho, Cory?
 Pensa em tir-lo de mim, Slade?
 Se acredita que eu seria capaz disso, ento no h mesmo esperana para ns. Tenho de ir embora daqui. No suporto mais esta situao.
Era o que ela queria. Observou-o em silncio enquanto ele deixava a cozinha. Slade foi para o quarto arrumar sua pequena mala. Alguns minutos depois, desceu a escada correndo e encontrou Cory na sala.
 Estou indo embora  ele a avisou.  No ficarei em Halifax. Deixe uma mensagem na minha secretria eletrnica em Toronto, quando o beb nascer.
Cory ficou imvel, pensou em dizer algo, mas desistiu. Slade abriu a porta, saiu e fechou-a atrs de si. Ela se sentou na poltrona mais prxima e apoiou a cabea nas mos. Ele se fora. Estava sozinha novamente, como sempre quisera. Tinha certeza de que Slade no voltaria mais. Ela conseguiu o que queria.
Uma semana depois, Cory estava em casa para almoar, quando o telefone tocou. Como em outras ocasies, pensou que fosse Slade, mas, ao atender, descobriu que no era. Ela nem imaginava onde ele estava ou o que fazia naquele momento.
 Al? 
  Cory? Aqui  Lavnia Hargreave. Como voc est, querida?
 Muito bem, obrigada. E a senhora?
  Estou bem, graas a Deus. Dillon tem feito um excelente trabalho aqui no meu jardim. Porm, gostaria que viesse at aqui para conversarmos.
 Amanh est bom para a senhora?  indagou Cory.
  Sim. Que tal s trs e meia da tarde? Assim, tomaremos um ch juntas.
 Para mim, est timo.
Pontualmente, Cory chegou  casa da sra. Lavnia na tarde do dia seguinte. O tempo j estava bem frio. O vento de dezembro soprava, cortante. Fechou bem o casaco pesado que usava e dirigiu-se  porta de entrada.
O jardim estava em timo estado. Talvez a sra. Lavnia quisesse planejar algumas mudanas para a primavera. Aliviada, tocou a campainha, sabendo que no encontraria Slade. A porta se abriu, e a simptica senhora a saudou, conduzindo-a a uma aconchegante sala, onde uma agradvel lareira aquecia o ambiente.
 Sente-se, querida. Vou buscar nosso ch com biscoitos e volto em um instante.
Olhando ao redor, Cory aproximou-se de uma prateleira,perto da lareira, que exibia uma vasta coleo de porta-retratos. Eram fotos de Slade em vrias fases de sua vida: ainda menino com um cachorro, vestido de beca no dia da formatura da faculdade, como noivo acompanhado de uma jovem no dia do casamento, como pai abraado a uma adorvel menina.
 Voc j conhece o meu filho, no ?  perguntou a sra. Lavnia, voltando da cozinha com uma bandeja de prata.
 Sim  respondeu Cory, desconcertada, sentando-se em frente  simptica senhora.
 Jane e Rebecca faleceram em um terrvel acidente. Slade se culpou pelo que aconteceu. Elas foram para uma festa, e ele as encontraria mais tarde, pois estava ocupadssimo no escritrio. Slade acreditava que, se estivesse na direo do carro, nada teria acontecido. Ficou to chocado que se afastou de tudo e de todos, evitando qualquer relacionamento amoroso.
Cory prestava ateno no relato que ouvia e lembrou-se do rosto de Slade, quando lhe contara sobre o acidente. Ele dissera a verdade, mas no toda. No mencionara a sensao de culpa que o atormentava! Era muito doloroso revelar esse sentimento. E ela nunca havia perguntado o que ele sentia. Tudo o que fizera fora tentar afastar-se dele.
Naquele momento, Cory percebeu que Slade a amava. Apesar do seu passado triste, ele reaprendera a amar, entendendo que sofrer tambm faz parte da vida.
Como pde ser to cega e insensvel a ponto de no perceber que Slade estava apaixonado de verdade? Lembrou-se do sentimento de culpa que o dominara quando ela tropeara numa pedra do jardim e cara.
A sra. Lavnia continuou falando, enquanto Cory se recordava de todos os momentos que passara com Slade.
 Voc provavelmente j sabe tudo sobre o meu filho.
 No... quero dizer... algumas coisas.
 Pensei que vocs... tivessem se conhecido melhor  a sra. Lavnia acrescentou, intrigada.
 Eu no sabia que ele se sentia culpado  afirmou Cory.
 Faria diferena, se voc soubesse?  perguntou a senhora.
Slade j havia perdido uma filha. Mandando-o embora, Cory estava impedindo que ele tivesse contato com esse beb to esperado. Fora egosta, pensando s em se proteger de novas decepes. No enxergara o que estava acontecendo com ele.
  Sim... faria... e muita  Cory respondeu, com a voz embargada.
 A primeira vez que os vi juntos no meu quintal, percebi que j se conheciam. A suspeita se confirmou no concerto sinfnico. Quando esteve aqui em novembro, Slade me contou tudo e disse que voc no queria se casar com ele.  verdade?
  Sim.  a pura verdade, sra. Lavnia.
 Antes de voltar para Toronto, na semana passada, ele passou por aqui e parecia to arrasado quanto na poca do acidente. Foi isto que me fez ligar para voc e pedir para que viesse at aqui. Talvez pense que sou intrometida...
  Claro que no  Cory apressou-se em dizer.
   a vida do meu filho e a do meu neto que esto em jogo. Ainda sinto saudade de Rebecca e ficaria muito feliz com um neto. Est apaixonada por algum, Cory?
 No.
 Nem pelo meu filho?
 Slade no me falou que a senhora sabia sobre o beb  Cory disse, mudando de assunto.  Tenho certeza de que a senhora deve ser uma av maravilhosa e sogra tambm.
  Obrigada, querida. Devo lhe dizer que Jane era uma jovem adorvel, porm muito tmida e reservada. Slade a amava quando se casaram. Com o passar do tempo, notei que ele reprimia sua energia e seu entusiasmo pela vida por causa dela.
Cory, ento, lembrou-se da primeira vez em que ela e Salde fizeram amor, do modo como ele se conteve para no assust-la e mesmo assim a envolveu num prazer jamais antes experimentado. Fora sempre egosta, pensando s em si mesma. Ah, como desejava fazer amor com ele agora!, pensou ela. Queria trocar emoes, paixes e riscos, dar tanto quanto receber e, acima de tudo, libert-lo do passado.
 Voc est bem, querida?  questionou a sra. Lavnia, preocupada com o sbito silncio de Cory.
 Sim, claro. No se preocupe. Eu estava apenas pensando... Na semana passada, Slade me disse que eu deveria ver o meu ex-marido, Rick. Realmente, no sei em que isso me ajudaria.
 Talvez a ajudasse a se libertar de alguns fantasmas do passado. Cory, voc ama meu filho?
 Amar? J amei um homem que mentia para mim. Como posso confiar novamente em algum?
 Precisa confiar em voc mesma primeiro.
 Acho que a senhora tem razo.
 Chamei-a aqui porque queria ver com meus prprios olhos o que estava acontecendo. Gostei de voc desde o momento em que a conheci.  uma mulher decidida e corajosa. Entretanto, no posso fazer nada para ajud-los. S depende de vocs dois. Gostaria apenas de ver o meu neto, se voc permitir.
  Claro, sra. Lavnia. Sempre que quiser. Para ser sincera, fico triste s de pensar que nunca mais verei Slade. No sei como vou resolver isso. Pode no fazer sentido para a senhora, mas estou num grande dilema. Preciso ir agora. Obrigada por tudo.
 Por favor, Cory, se precisar de alguma coisa, ligue-me imediatamente. E no se esquea de me avisar quando o beb nascer.

                                           CAPITULO XIII
Uma semana se passou, e cada vez mais Cory se movia com dificuldade. Por isso, deixou Dillon tomando conta dos negcios no escritrio, enquanto preparava as roupas e o quarto do beb.
No teve notcias de Slade. No entanto, pensava muito nele. Decidiu que depois do nascimento do beb resolveria como t-lo de volta.
Feliz por sair de casa um pouco, aceitou o convite de Sue para almoar na semana seguinte. Tomou um txi, pois no conseguia mais dirigir por causa da barriga.
Como sempre, Sue a recebeu com carinho, e Cory ficou contente de rever as crianas. Depois do delicioso almoo, sentaram-se na sala para saborear um caf.
  No sei se deveria falar, mas... voc leu o jornal hoje?  Sue indagou de repente.
 No. Por qu?
 Ento, d uma olhada na parte de entretenimento. 
Cory pegou o jornal e folheou-o depressa at chegar a uma pgina com uma foto grande que ocupava todo o espao. Era de Rick! Leu a reportagem detalhadamente. No sbado seguinte, o escultor Rick Dempsey faria uma exposio de seus trabalhos numa galeria no centro de Halifax. O artista estaria presente ao coquetel aberto ao pblico da uma s cinco horas da tarde.
 Bem... acho que  uma boa idia fazer uma exposio antes do Natal  disse Cory, com desdenho.
 E s isso que tem a dizer, Cory? Quer que eu v com voc? 
 No vou  exposio, Sue.
 Claro que vai! Lembre-se do que me contou h algum tempo: Slade aconselhou-a a ver Rick de novo. Talvez resolva alguma coisa na sua cabea.
  J falei. No irei! Obrigada por ter me avisado. Ficarei longe daquela galeria no sbado.
  Cory, s vezes, tenho vontade de bater em voc. Slade Reeden  um homem bonito, sexy e, alm de tudo, uma boa pessoa. O que deseja mais? Parece que gosta de sofrer, que quer viver para sempre com essa angstia no corao por causa de um patife chamado Rick. Um. dia voc ficar velha, sozinha e arrependida. Ento, ser tarde. Pegarei voc  uma e meia, e no discuta.
 E se, ao v-lo, eu descobrir que ainda o amo?
 No seja tola! Sabe que isso  impossvel.
 Sue, no quero v-lo!
 Eu sei, mas  necessrio, Cory. Acredite. Voc vai resolver muitas coisas que ainda complicam a sua vida. Use aquele vestido verde que lhe cai muito bem.
 O que deverei dizer, se Rick perguntar sobre o meu marido?
 Diga que voc desistiu do casamento para sempre! No  a verdade?
Uma hora mais tarde, Sue acompanhou-a at a porta do txi. Com movimentos lentos, Cory sentou-se no banco de trs. Ainda estava em dvida sobre ir  exposio de Rick. De sbito, pensou onde estaria Slade? Talvez em Toronto. No teve notcias dele desde que partira. Ser que estaria pensando nela?
Naquele momento, Slade no estava pensando em Cory. Ao contrrio, como vinha fazendo desde que deixara Halifax, ele tentava executar diferentes atividades e ficar bem ocupado para esquec-la. Nada como uma disputada partida de tnis para cansar a mente e o corpo de um homem apaixonado.
 Slade, estou vendo que est suando a camisa, mas acho que no est muito concentrado  Bruno falou do outro lado da rede.  Voc no  homem de desistir com facilidade, amigo.
 Bruno, tenho tido problemas. S isso.
 Maldita a hora que voc conheceu Cory. Se gosta dela, v a Halifax e sequestre-a. Ou ento, compre a casa do lado da dela. Se no der certo, adote um par de gmeos para manter-se bem ocupado e esquec-la.
 Deve haver alguma alternativa melhor.
 Tudo bem. Mas faa-me um favor: volte a Halifax e resolva esse problema. No adianta ficar aqui, pensando nela com essa cara de infeliz.
Recomearam o jogo e se esforaram heroicamente. Ambos estavam cansados e ofegantes ao final da partida.
 Tem razo, Bruno. Desisti de lutar e fugi para Toronto.
 Como um cachorrinho abandonado  brincou o amigo.
 Como os negcios ficam meio parados perto do Natal, vou aproveitar e irei a Halifax para procur-la.
  assim que se fala  congratulou-o Bruno.
 Talvez ela ainda no queira nada comigo, nem nunca seja minha esposa, porm sou o pai do beb. Quero ser um pai verdadeiro, como o meu prpio nunca foi para mim.
No sbado de manh, Sue ligou para Cory, que estava em casa, descansando.
 Voc no vai acreditar... Ralph ainda no chegou de viagem como o previsto. Creio que estar aqui s  noite. Alm disso, no consigo encontrar uma bab para ficar com as crianas. Sinto muito, Cory, mas no poderei ir com voc  exposio. Mesmo assim, voc ir, no?
 A meteorologia previu uma tempestade de neve para hoje  murmurou Cory, desanimada.
 Ser s  noite. No arranje desculpa. V! Depois que desligou o telefone, Cory ficou pensando no que faria. Sue no podia ir com ela, uma tempestade de neve era esperada naquela noite, sentia fortes dores
nas costas... Eram boas razes para acender a lareira e ficar em casa. Afinal, que bem lhe faria rever Rick aps todos aqueles anos? Ele sempre a fizera sentir-se infeliz e incapaz. Por que iria querer ver aquele homem de novo? Seria louca se fosse  exposio!
Ao meio-dia, fez um sanduche, que comeu sem apetite. Quando faltavam quinze minutos para a uma hora, foi ao quarto, pegou o vestido verde e ficou olhando-o em cima da cama, como se tentasse encontrar a soluo para seu dilema.
Slade e Sue achavam que deveria ir. A sra. Lavnia disse que a admirava por achar que fosse uma mulher corajosa. Que tal deixar de ser covarde e rever Rick?
Vestiu-se, colocou um par de brincos, sapatos e desceu. Chamou um txi e, enquanto esperava, caprichou na maquiagem.
Quando o carro chegou, vestiu um longo casaco de l, saiu e trancou a porta. Estava bem frio, e, com certeza, a tempestade de neve prevista para aquela noite no tardaria.
Ao chegar  galeria, j havia muitas pessoas l. Vendo Rick de longe, no meio da multido, teve um mpeto de se afastar e sair correndo dali. No devia ter ido. Rick estava conversando com algumas pessoas. Cory respirou fundo e, com firmeza, caminhou lentamente em sua direo. Ao se aproximar, ele a olhou com admirao.
 Cory!  ele exclamou.  Meu Deus!  voc, Cory?
 Ol, Rick!
Por uma frao de segundo, reviu vrios momentos de sua vida com Rick e observou-o atentamente. Ele no era to alto quanto pensava. Nem mesmo bonito. Como no percebera antes que ele tinha um ar to petulante? Aqueles olhos azuis eram frios como pedaos de vidro. Com uma ponta de satisfao, notou que ele comeava a ficar calvo.
  Parabns pela exposio.
 Voc mora em Halifax, Cory? Casou-se de novo?
  Sim, moro  ela respondeu, com calma.  Mas no sou casada. Desisti disso h muito tempo.
 Voc est... linda! Quem  o sortudo que a conquistou?
 Ningum que conhea. E voc, ainda est casado?
 No com Carolina. Tornou-se to ciumenta que no pude suportar. Casei-me novamente no ms passado com uma modelo famosa. Voc no ouviu falar?
 No me interesso por esses assuntos de imprensa. Tenho outras coisas para pensar. Desejo-lhe felicidade, Rick. Preciso ir agora. Adeus.
Virou as costas e foi embora, deixando-o imvel e boquiaberto.
Era um adeus definitivo, pois pretendia no o ver nunca mais. No sentira nada quando o vira. Como pudera dar tanta importncia a ele? Fora bom falar com Rick para perceber que no mais o temia e que to pouco era importante em sua vida. Slade tinha razo.
Pegou um txi e voltou para casa. Estava to entretida em seus pensamentos que mal percebeu que o cu estava cinza-escuro e pesado de neve.
Sentia-se livre do passado e do homem que quase destruiu sua vida. Agora entendia por que pensava que o casamento anularia sua identidade. Slade, ao contrrio, deixava-a ser ela mesma, amando-a como era.
Quando saiu do txi e caminhou em direo  porta de entrada, sentiu fortes dores nas costas. Os flocos de neve j caam com bastante intensidade.
Ao entrar em casa, trancou a porta e pensou em passar o resto do fim de semana em frente  lareira, descansando. Vestiu algo mais confortvel e sentou-se perto do fogo, que acendera assim que chegara.
Slade no era nada parecido com Rick. Ele amava Cory e o beb, enquanto Rick s sabia amar a si mesmo. Como pudera ser to estpida a ponto de mandar Slade embora?
L fora, a neve caa pesada, formando uma cortina branca nas janelas. Sentiu-se s e triste.
Jogara fora a sua grande, e talvez nica, chance de felicidade, quando dissera a Slade que no o amava. Fora um erro!
No fundo, Cory sabia que era louca por ele. Apaixonara-se desde o primeiro momento em que o vira. Entretanto, estava to ligada ao passado que no fora capaz de reconhecer o amor e a felicidade. Agora era tarde. Slade optara por uma vida onde no havia espao para Cory!
Colocou mais lenha no fogo da lareira.
Tivera medo de rever Rick, mas agora sentia medo maior ao pensar que jamais veria Slade de novo.
O vento comeou a soprar mais forte, e os galhos das rvores danavam ao som daquela melodia solitria. O cu estava escuro, e a neve caa implacvel.
Cory pensou que talvez ainda houvesse uma chance. Se Slade a amava tanto como dissera havia pouco mais de duas semanas, no poderia ter mudado seus sentimentos em to pouco tempo.
Sem dar ateno s fortes dores nos quadris, ela pegou o telefone e discou o nmero da casa de Slade em Toronto. Esperou, ansiosa, at que a voz dele soou, metlica, na secretria eletrnica, do outro lado da linha.
 Slade, vi Rick hoje, e voc tinha razo. Descobri que amo voc. No conseguia perceber isso antes porque estava presa ao passado. No me odeie, por favor. Te amo muito! Venha para Halifax assim que possvel  disse Cory, chorando ao telefone.
Em seguida, preparou uma sopa e ligou para Sue. Ralph havia chegado da viagem, e a amiga ficou feliz em saber que Cory finalmente se libertara daquela angstia.
Aps desligar o telefone, Cory olhou a tempestade de neve pela janela e rezou para que Slade recebesse logo a sua mensagem. Ser que ele teria ido a um encontro com outra mulher? Afinal, era sbado  noite. Resolveu ligar para a sra. Lavnia, pois talvez ela soubesse onde Slade estava.
Quando pegou o telefone de novo, porm, percebeu que no estava funcionando. Alguns minutos depois, a eletricidade acabou. Tempestades de neve sempre traziam esses tipos de problemas.
Com cuidado, chegou  cozinha, onde achou velas e fsforos. Voltou  sala e acendeu algumas delas. De repente, sentiu que as dores pioravam. Resolveu, ento, anotar em um papel a hora de cada contrao. Tentou se acalmar, pois sempre soubera que o primeiro beb no nascia rpido. Rezava para que seu filho nascesse s depois que a tempestade de neve passasse. Como as contraoes se mantinham constantes, decidiu deitar-se no sof da sala e aguardar que a energia eltrica e o telefone voltassem a funcionar.
Nervosa, percebeu que as contraoes aumentavam de intensidade e com menor intervalo entre elas. No era alarme falso. Levantou-se e decidiu bater na porta do vizinho mais prximo para pedir ajuda. Desapontada, olhou pela janela e constatou que todas as casas mais prximas da sua estavam em total escurido. Deviam ter ido para a casa de seus familiares para comemorar o Natal que estava prximo. Pensou em pegar sua caminhonete, que se encontrava na entrada da casa, e dirigir at o hospital.
Com extrema dificuldade, colocou seu casaco de l e abriu a porta da entrada. O vento quase a derrubou, e a neve constante branqueou seu casaco e o cho do hall. Uma contrao mais forte a fez abaixar-se e segurar com fora a maaneta da porta. Percebendo que no conseguiria chegar ao carro e muito menos dirigir, entrou em casa e, com dificuldade, fechou a porta.
Muitas mulheres fazem seus partos sozinhas. Se meu filho nascer agora, tambm vou conseguir, pensou, desejando muito que Slade estivesse ali para ajud-la naquele momento.
Com esforo, pegou diversas toalhas de banho limpas e deitou-se no sof da sala.

                                           CAPTULO XIV
Slade estava em Montreal naquele fim de semana. Depois de trabalhar durante todo o sbado, pegou um txi e foi para o hotel. Aps o banho, ligou para a sua casa em Toronto, para ver se havia algum recado na secretria eletrnica.
Uma mensagem, particularmente, deixou-o nas nuvens. No estava sonhando. Cory dizia que o amava e que o queria junto a ela!
Com as mos trmulas, discou o nmero dela em Halifax. Aps vrias tentativas, a telefonista disse que a cidade estava sem energia eltrica e telefone devido  tempestade de neve. Imediatamente, Slade ligou para o aeroporto e reservou um lugar no vo que partiria para Halifax em quarenta e cinco minutos. Chamou um txi e embarcou assim que chegou ao aeroporto.
O avio circulou vrias vezes sobre Halifax, at poder aterrissar com segurana. Slade foi um dos primeiros a sair da aeronave. Pensou em tentar ligar de novo para ela, mas, para no perder tempo, pegou um txi e rumou para l direto.
 Tentarei chegar o mais rpido possvel, senhor. Porm, o tempo no est ajudando muito. Felizmente, coloquei os pneus prprios para neve ontem  disse o motorista.
Slade no podia esperar para v-la, abra-la e beij-la. Estava ansioso para ouvir Cory dizer que o amava e que queria viver com ele. A ansiedade dominava seu corao e a dvida de encontr-la bem ocupava sua mente. Queria acreditar que ela estava segura, pois ainda faltavam duas semanas para o beb nascer.
Com bastante cuidado e habilidade, o motorista conseguiu chegar  rua onde Cory morava.
 A casa dela  a da esquina. Meu Deus! Todas as casas esto na escurido. Veja! H luz na casa de Cory! Voc poderia esperar cinco minutos aqui, caso eu precise de seus servios? Ela est grvida e no sei se passa bem  falou Slade.
 Claro. Ficarei aqui, esperando seu retorno  concordou o motorista.
Com dificuldade, Slade abriu a porta do txi e caminhou alguns metros at a casa de Cory. A neve caa impiedosa. Bateu na porta vrias vezes, mas no obteve resposta. Podia ver que havia luz de velas dentro da casa. Tinha certeza de que Cory estava l, pois no deixaria as velas acesas sem estar em casa. Por sorte, tentou a maaneta e constatou que a porta estava destrancada.
 Cory? Onde est voc?
  Slade! Estou aqui no sof.
  Cory, meu amor. Fique calma. Estou aqui e vou lev-la para o hospital. H um txi aguardando por ns l fora  disse ele, abraando-a com ternura.
  melhor que seja rpido, pois seu filho est chegando. Slade correu at a porta e chamou o motorista, que veio prontamente para ajud-lo a carregar Cory at o veculo.
 Eu te amo, Slade. Sempre te amei.
  Eu tambm a adoro, Cory. Vai dar tudo certo. 
Embrulhada em toalhas e cobertores, Cory foi conduzida  sala de parto, assim que chegou ao hospital. Em poucos minutos, Slade recebeu a notcia de que o beb havia nascido e de que, tanto me como filho, passavam muito bem.
Sete semanas mais tarde, Cory e Slade j estavam casados. A cerimnia fora muito simples. Com a presena da sra. Lavnia, radiante de felicidade com a chegada do neto. Sue, Ralph e as crianas tambm estavam presentes, alm de alguns parentes bem prximos.
Slade fora morar na casa de Cory, embora j discutissem sobre a compra de uma casa maior na primavera e a transferncia dos negcios dele para Halifax.
O pequeno Matthew Slade era uma verdadeira bno. Cory adorou ser me, e Slade mostrou-se um pai maravilhoso.
O nico problema era que Slade e Cory no faziam amor havia muito tempo. Desde que ele fora morar com ela, Slade se esforara para manter o resguardo indicado pelo mdico. No entanto, agora, poderiam se entregar aos prazeres da paixo que os unia, sem nenhuma restrio, pois se libertaram dos fantasmas do passado e sentiam-se livres para amar outra vez. Planejavam, assim que possvel, fazer uma bela viagem de lua-de-mel, e,  claro, acompanhados pelo pequeno Matthew!

 
                            F I M
                                      
